“Movida a sonhos”: conheça a trajetória da diretora da Nestlé para a América Latina

Katia Regina Pereira, 41 anos, sempre gostou de novos desafios. De origem humilde, ela construiu sua trajetória com ambição, sem enxergar limites para alcançar o que sonhava. Consolidou a carreira na área de recursos humanos, subiu degrau por degrau e, após anos de dedicação, chegou à direção da transnacional Nestlé. Em paralelo, um acidente mudou radicalmente sua vida, exigindo que ela usasse, mais uma vez, uma de suas melhores características: a adaptabilidade. Equilibrando o trabalho e a maternidade, além da nova realidade como pessoa com deficiência, ela assumiu a diretoria da empresa para a América Latina, reforçando o engajamento da marca e fortalecendo sua própria voz em defesa da inclusão e da diversidade.

Hoje, morando no México com a filha de 7 anos, Katia continua sua jornada de liderança, enfrentando desafios culturais e estruturais para tornar o ambiente corporativo melhor e mais acessível em diversos países. À frente de iniciativas estratégicas em busca de competitividade no pacote salarial, ela adapta políticas de remuneração e benefícios para diferentes realidades e promove mudanças nas organizações e na sociedade. Para a gestora, a liderança vai além da posição que se ocupa, é sobre superar limites e abrir caminhos para que outros também possam evoluir. Tudo isso com sua marca registrada: competência, leveza e bom humor.

Katia e a filha, Catarina, de 7 anos

Nascida em São José dos Campos, no interior de São Paulo, Katia Regina cresceu em um bairro pobre, chamado Vila Cristina, onde morou grande parte da vida. Filha de Geraldo, eletricista de manutenção, e de Francisca, empregada doméstica, ela sempre recebeu incentivo para os estudos dentro de casa, estudou em escolas públicas e se destacava como uma “aluna nota 10”. Porém, as condições financeiras da família eram limitadas, o que a motivou desde cedo a buscar oportunidades para mudar sua realidade e a de sua família.

“Eu sou caçula de dois irmãos mais velhos. Vim de uma família que não tinha muitas condições de viajar, de ter lazer externo, comer em restaurantes ou no shopping, coisas assim. Essa não era a minha realidade, mas eu tinha bastante paixão pelos estudos e sempre tive a ambição de ter essas oportunidades e de conhecer lugares”, conta. Inspirada pelo esforço dos pais, ela entendeu que somente a educação e o trabalho poderiam abrir portas para uma vida melhor.

Katia cresceu na Vila Cristina, bairro no interior de São Paulo

Aos 12 anos, Katia encontrou uma forma de ganhar dinheiro: vender os limões do quintal do tio. “Essa é uma história que a gente sempre comenta nos almoços de domingo da família. A ideia partiu de mim. Meu tio colocava os limões naqueles carrinhos de mão, aqueles que carregam areia, e eu, ‘magrelinha’, andava pelas ruas do bairro para vender. Não sei se as pessoas compravam por dó, mas era um sucesso, e eu fiz isso por quase um ano, dos meus 12 aos 13 anos, todos os dias”, lembra. O dinheiro arrecadado permitiu que Katia fizesse seu primeiro curso, de datilografia.

Aos 15 anos, ela conseguiu seu primeiro emprego formal como atendente de telemarketing na empresa de software Crosoft, vendendo sistemas. “Eu lembro que todo mundo, aos 15 anos, sonhava com uma festa de debutante, enquanto eu sonhava em ter um trabalho com carteira registrada. E eu consegui! Fiquei nessa empresa ao longo de três anos, onde também pude ter dinheiro para fazer um curso técnico de publicidade, e foi a primeira vez que eu consegui ir para uma escola privada”, compartilha.

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Katia se formou no ensino técnico em 1994, ano em que o Brasil participou das Olimpíadas de Inverno em Lillehammer, na Noruega. Inspirado nisso, seu trabalho de conclusão de curso (TCC) abordou como utilizar embalagens para divulgar esportes, com foco na marca Leite Moça da Nestlé, empresa onde, anos depois, construiria sua carreira. “Eu tenho o TCC até hoje e me emociono bastante quando vejo. Na época, nem sonhava em trabalhar na Nestlé.”

Inicialmente, a então estudante sonhava em ser jornalista, mas mudou de ideia após conhecer uma profissional de relações públicas (RP), que despertou nela o interesse pela área. Fascinada pelo mundo corporativo, decidiu prestar vestibular para RP na Universidade de Taubaté, sendo aprovada entre os primeiros colocados.

Formatura em relações públicas na Universidade de Taubaté (SP)

Seu ingresso na Nestlé também aconteceu de forma inesperada: “Dei carona para uma amiga até o processo seletivo para estágio e, sem planejar, fui chamada para participar da seleção”, na qual acabou sendo aprovada. Sua amiga não passou, e Katia chegou a cogitar abrir mão da vaga, mas seguiu adiante e iniciou como estagiária em 2004. Seis meses depois, foi chamada para cobrir uma licença no RH e, desde então, nunca saiu da empresa.

Engajada na carreira, Katia percebeu que precisava desenvolver certas habilidades para continuar crescendo profissionalmente, como aprender uma nova língua. Sem condições financeiras para pagar um curso, ela decidiu estudar assistindo a canais em inglês na TV a cabo. “Fechei o pacote e comecei a estudar inglês através de escuta. Igual criança, eu ficava repetindo. E estudava inglês por aquelas apostilas de concurso público”, detalha. Seu esforço foi recompensado anos depois, quando novas portas se abriram.

Em 2009, ela se arriscou no programa de trainee da Nestlé e foi reprovada pelo inglês. No ano seguinte, persistiu e conseguiu não só passar, mas realizar mais sonhos. “Aquele foi o único ano em que também foi aberta uma vaga para o treino internacional. Quem passasse naquele programa poderia aplicar para essa modalidade, na qual seriam selecionados nove trainees ao redor do mundo para fazer uma missão na Suíça. Foi o ano de 2010 e eu fui uma das aprovadas”, conta. Durante dois anos, Katia viajou por 15 países implementando uma ferramenta de recrutamento e seleção. “Aquela menina que nunca havia andado de avião e nunca tinha saído do país, em dois anos, conseguiu fechar três passaportes”, diz, orgulhosa.

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Desde 2004 na Nestlé, Katia teve de se mudar diversas vezes, morando em outros estados, como Rio de Janeiro e Espírito Santo, e percorreu todos os níveis da hierarquia corporativa: começou como assistente, depois foi analista, trainee, especialista, coordenadora, gerente e, por fim, diretora. Atualmente, ocupa o cargo de diretora regional de Total Rewards (Remuneração e Benefícios) para a América Latina, com a missão de garantir competitividade do pacote salarial em mais de 20 países.

Katia credita parte de sua visão de mundo também à forma como foi criada. “Meus pais me colocaram em uma ‘bolha’. Nunca falávamos de racismo ou preconceito em casa. Mas eles nos ensinaram a sempre carregar a carteira de trabalho, como um álibi. Nos prepararam para o mundo, mesmo sem falar diretamente sobre essas questões”, descreve.

Família reunida

Embora controversa, ela reconhece que essa abordagem a “protegeu”, ajudando a não se importar com os obstáculos sociais ou com a opinião externa a seu respeito. Por outro lado, destaca que essa “bolha” a impediu de perceber situações de racismo que possa ter vivenciado, algo que só veio a compreender mais tarde, quando o tema ganhou maior destaque na sociedade e nas empresas — inclusive, na Nestlé, em 2020, quando foi criado o centro de expertise em diversidade.

Apesar de ocupar cargos importantes na Nestlé, Katia sempre procurou separar sua vida profissional e pessoal, sem deixar que o trabalho definisse sua identidade. A virada na sua vida aconteceu em outubro de 2022, quando teve de se reinventar em uma nova realidade após ser vítima de violência doméstica, sofrendo um incidente que a deixou paraplégica. “Essa dor durou 42 dias. Depois eu falei: ‘Ah, é assim? Então, bora se adaptar”, recorda. Sua recuperação durou cerca de um ano.

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“Eu não acho que vem sofrimento para você se manter sofrendo, mas para se superar e evoluir cada vez mais”, acredita. Ela também encontrou inspiração em diversas pessoas ao longo da jornada. Sua mãe, com toda força emocional, foi um exemplo de como superar os desafios com serenidade. Já no trabalho, líderes, como o presidente e o vice-presidente de confectionary (confeitaria) da Nestlé, além de Henrique Rueda, vice-presidente de RH, ofereceram suporte e oportunidades para que Katia pudesse se desenvolver e seguir em frente. “O mais precioso para nós são seus valores, sua inteligência, e isso não foi abalado”, ouviu de seus superiores.

Além disso, ela destaca a importância da rede de apoio em sua vida. Cinco amigas, apelidadas de “maridas”, foram fundamentais para ajudá-la a enfrentar os momentos difíceis, como o período em que esteve no hospital. “Com certeza, nem da cama eu conseguiria ter levantado se não fosse por essas pessoas. Ver elas ali todo dia, torcendo por você, foi essencial”, afirma.

Katia e as “maridas”: “Sem elas, não teria levantado da cama”

À frente da América Latina na Nestlé, Katia se prepara para lidar com a diversidade cultural, social e econômica dos países da região. Diante dos desafios, ela acredita em uma solução: continuar sonhando. “Todos nós passamos por problemas, e acho que isso também faz fortalezas. Eu nunca estive tão em paz como agora. Sou movida por sonhos, e hoje, o maior deles é viver por mais de 100 anos.”

Katia Regina e a filha, Catarina, mudaram-se para o México em janeiro. Apaixonada por esporte, ela se prepara para testar aulas de dança para cadeirantes: “Nunca estive tão em paz”


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