Um tour pelo Alentejo, terra de sol, calor e vinho (bom)

O nome já explica a origem geográfica. Alentejo significa “além do rio Tejo”, para quem parte de Lisboa. Fica no sudeste de Portugal e ocupa um terço do território lusitano com 500 mil habitantes, que representam apenas 5% da população do país. A região dispõe de mais de 40 tipos de uvas.
De lá saem vinhos tintos concentrados, extraídos de taninos macios, muito corpo e alto teor alcoólico. São muito apreciados pelos brasileiros, daí ser o Brasil o principal mercado para os vinhos alentejanos. Antão Vaz é a uva branca mais afamada, junto com Arinto, Fernão Pires e Roupeiro. Já a tinta é baseada na Tinta Roriz/Tempranillo.
As colunas de granito do majestoso Templo de Diana, em Ã?vora
A rota dos vinhos do Alentejo começa por Évora, capital da província e cidade tombada pela Unesco como Patrimônio Histórico Mundial, graças às ruínas romanas, especialmente o majestoso Templo de Diana, que já abrigou um teatro e um matadouro e cujas colunas de granito são vistas em todos os antigos cartões-postais e atuais cliques instagramáveis.
Além de charmosas ruelas, a velha vila medieval reúne inúmeras atrações, como a Igreja de São Francisco com sua Capela dos Ossos e museu, uma grande universidade, bares e restaurantes, como o Fialho, de comida alentejana, que já foi considerado o melhor restaurante regional da Europa. Atualmente, uma abordagem moderna à cozinha tradicional alentejana é feita no Lombardo. Comece se deliciando com vieiras escoltadas de purê de batata-doce, crumble de croutons e legumes salteados antes de pedir lombo de garoupa com caldo de camarão. O chef João Lombardo, que dá nome à casa, gosta de harmonizar com um bom Bojador.
Um dos mais importantes vinhateiros portugueses, João Portugal Ramos, ao lado do filho, Vitor Hugo
Cerca de 40 quilômetros ao norte de Évora, chega-se a Estremoz, conhecida como “cidade branca” devido à extração de mármore branco usado em edificações medievais, como o Castelo de Estremoz e as muralhas do século 13 com quatro portas de entrada… de mármore. Lá, reina um dos mais importantes vinhateiros portugueses, João Portugal Ramos, que antes de fazer seus próprios vinhos foi enólogo nas principais regiões vinícolas do país. Para ele, “o vinho é a expressão de quem o produz e não fruto do acaso”. Fica na Adega Vila Santa, cuja arquitetura é típica alentejana, a sede do grupo que produz 4 mil garrafas ao ano. Lá se pode também almoçar uma refeição de três etapas (entrada, prato principal e sobremesa) por 65 euros acompanhada de vinhos.
Nas prateleiras, há muitas maravilhas, entre elas, Marquês de Borba, título pertencente a um antepassado de João Portugal Ramos, que se distinguiu pela sua enorme cultura e paixão pelas artes. “A mesma paixão que nos inspirou na criação deste vinho que procura dignificar todo o potencial vitivinícola do Alentejo”, destaca o rótulo da garrafa. Com o mesmo nome, há uma versão do vinho branco Marquês de Borba Vinhas Velhas, ambos por R$ 229 cada, na Porto a Porto, enquanto a versão Colheita sai por R$ 99.
Até vegano faz parte do portfólio com o nome de Pouca Roupa — são vinhos branco, rosé e tinto, concebidos para o público jovem para brindar os dias quentes do verão. Outra joia é o Duorum, resultado da parceria de dois conhecidos enólogos. “Esse foi feito no Douro com meu amigo de infância José Maria Soares Franco”, explica João Portugal Ramos, que acaba de replicar o rótulo para embalagem bag in box por 10,50 euros em Portugal.
Também está aberta à visitação a Adega de Borba. Mais antiga cooperativa do Alentejo, foi fundada por 12 viticultores da região e este ano está completando 70 anos. Atualmente, 270 associados cultivam uvas brancas e tintas, que resultam em 40 rótulos distintos, assinados pelo enólogo Oscar Gato. O Brasil está entre os cinco principais mercados da cooperativa.
Vinícolas do Alentejo A Fita Preta foi construída em um palácio muito procurado para cerimônias de casamento
A maior novidade, porém, está instalada num prédio construído no fim do século 14, a 15 minutos de Évora, que é o Paço do Morgado de Oliveira, totalmente reformado e arrendado pelo enólogo e consultor Antônio Maçanita e o sócio David Brook. Filho de pai açoriano e mãe alentejana, o lisboeta Maçanita escolheu o antigo palácio para instalar a vinícola Fita Preta, em meio a vinhedos cultivados há 60 anos.
Antônio Maçanita escolheu um antigo palácio para instalar a vinícola Fita Preta, em meio a vinhedos cultivados há 60 anos
Com queijos de produtores locais e presunto 100% bolota é servida a prova de sete vinhos com explicação sobre cada um. Imponente e considerado “dos sonhos” pelas agências, o local é muito usado para casamento. No início do ano, foi aberto ao público um restaurante dentro da antiga capela, lugar imponente e histórico que recebeu reis e rainhas. No cardápio essencialmente gourmet com entrada de cogumelos, espuma de abóbora e castanha-do-brasil, vem uma tábua de queijos de produtores locais. Destaque para os queijos amanteigado e curado feitos de leite de ovelha. Reservas no site www.antoniomacanita.com.
Cartuxa é uma das vinícolas mais populares de Portugal
Se há um ícone alentejano no mundo dos vinhos, esse se chama Pêra-Manca. Relativamente novo, foi lançado em 1990 e só houve até agora 14 safras. Bastante encorpado, complexo, com aromas de passas de frutas escuras e toque de madeira, apresenta 15,5% de álcool e é feito de duas uvas autóctones portuguesas: Trincadeira e Aragonez.
O nome do vinho vem da expressão pedra manca, que se refere a grandes seixos soltos encontrados no Alentejo. Solo característico da região árida e seca, ao contrário do norte, onde as terras são mais férteis e são chamadas de quintas. A expressão deriva da quinta parte que o produtor tinha de repassar ao governo, de quem havia recebida a terra. No sul, os beneficiários exigiram uma extensão maior do que normalmente tem as quintas, daí essas propriedades rurais terem sido chamadas herdades, e assim são denominadas até hoje.
O Pêra-Manca é ícone alentejano no mundo dos vinhos
O Pêra-Manca é produzido pela Adega Cartuxa, adquirida no século 19 pela família Eugênio de Almeida, que aumentou a área do antigo mosteiro. De lá saem, anualmente, cerca de quatro milhões de garrafas distribuídas pelas marcas Vinea Cartuxa, EA, Foral de Évora, Cartuxa, Scala Coeli e o lendário Pêra-Manca, vendido por 350 euros. Na Super Adega, o Pêra- Manca tinto safra 2018 custa R$ 4.690 a garrafa, enquanto o branco safra 2021 sai por R$ 899,90.
A Reynolds oferece almoço típico, que inclui borrego assado com batatas
De fácil execução, a cozinha alentejana tem proteínas deliciosas, entre elas, o porco preto e o borrego, assim chamado o animal da raça ovina até 12 meses de idade. Feito ao forno com batatas, é um prato substancioso que pede vinho tinto, coisa que a Reynolds Wine Growers dispõe feito de várias castas, entre elas, a francesa Alicante Bouchet, da qual foi pioneira, tornando-a “a casta estrangeira mais portuguesa de Portugal”, como se diz por lá.
Localizada no alto Alentejo, na região de Portoalegre, a vinícola Reynolds pertence à família de origem inglesa, que produz vinhos desde 1850. O top se chama Gloria Reynolds em homenagem à matriarca e é produzido apenas em anos de excelente safra. Você pode agendar uma visita com degustação de vinhos até com almoço típico, que começa com sopa de tomate, folhado de alheiras com abóbora, borrego assado com batatas e siricaia de sobremesa. Será servido num espaço rústico com lareira, onde os pratos se mantêm aquecidos pelo fogo.
A Reynolds tem origem em uma família inglesa
Ainda em Portoalegre, está a Adega Mayor, pertencente ao Grupo Nabeiro, dono da marca Delta Cafés, presente em 40 países, inclusive o Brasil. O plantio começou em 1997 em 180 hectares de vinhas distribuídos em três herdades. A vinícola leva a assinatura de um dos mais importantes arquitetos de Portugal, Siza Vieira, de 91 anos, que costuma dizer “Não quero ser consagrado, quero ter trabalho”.
Vale a pena a degustação dos bons vinhos, como Comendador e Caiado, acoplada à visita guiada. Do terraço panorâmico, pode-se observar os vinhedos, o olival e até a Espanha, que faz fronteira com o Alentejo.
Alguns dos melhores vinhos de Portugal são produzidos no Alentejo. Nem sempre foi assim. Durante o regime salazarista, a área foi destinada ao plantio de cereais, enquanto vinhedos eram arrancados. Ainda hoje a região, que é a maior do país, é essencialmente agrícola, com culturas de grãos, oliveiras e bosques de sobreiros — a árvore da cortiça, matéria-prima da rolha, da qual os portugueses são o principal produtor mundial.
A vitivinicultura começou a ser conhecida a partir de 1988 quando a região foi demarcada, embora lá já se produzisse vinhos muito antes. Segundo a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, a área plantada é de 21.970 hectares e conta com mais de 600 produtores, dos quais 651 são membros da CVRA, representando 58% da área total de vinhas da região.
Conservar a natureza com foco na adaptação às mudanças climáticas, incentivar práticas ambientais responsáveis na indústria do vinho, como reduzir o peso da garrafa de vidro e até mitigar os danos agrícolas provocados pelo pássaro migratório estorninho cinzento, que alterou a rota do norte da África para ficar mais tempo no clima cada vez mais quente do Alentejo estão entre os objetivos do Programa de Sustentabilidade dos Vinhos do Alentejo (PSVA), lançado há 10 anos. “Esse programa é essencial para garantir a competitividade, a qualidade e a identidade dos vinhos, preservando recursos, apoiando os produtores e respondendo ao mercado”, afirma Tiago Caravana, diretor de marketing da CVRA.
Vinícolas do Alentejo A Herdade dos Grous foi comprada pela família alemã Pohl, que passou a produzir vinhos em 2004
Ave migratória de grande porte que voa sempre com o pescoço estendido, em longas travessias desde o norte da Europa para o norte da África, os grous procuravam descanso num ponto do Alentejo. A observação deu nome à Herdade dos Grous, propriedade comprada pela família alemã Pohl, que passou a produzir vinhos em 2004. Situada a 20 quilômetros de Beja, um dos três distritos do Alentejo (os outros dois são Évora e Portoalegre), a herdade de 1.050 hectares reúne produção de vinho e azeite, agropecuária, turismo rural e enoturismo.
Ela se distingue de outras também pelo conforto e pela comida oferecidos no hotel, onde os clientes poderão degustar azeite e vinho durante o menu. Quem responde pela vinificação é o premiado enólogo Luis Duarte, eleito três vezes enólogo do ano em Portugal.
Luis Duarte foi eleito três vezes enólogo do ano em Portugal
Um passeio de jipe ao longo de 800 hectares é a melhor forma de conhecer o ecossistema da Tapada de Coelheiros, em Arraiolos (distante 22 quilômetros de Évora), cuja história começa há 500 anos, quando a propriedade rural foi oferecida como dote de casamento a Dom Rui de Sousa, autor do Tratado de Tordesilhas. Em 2015, o brasileiro Alberto Wesser comprou a herdade e contratou o enólogo Luis Patrão para elaborar os vinhos. Wesser, que fala com sotaque por ter estudado em colégio alemão no Brasil, onde viveu até os 25 anos, atuou na indústria química Basf, na Alemanha, e foi presidente global da Bunge, em Nova York. “Teve um ano que dormi 90 noites dentro de um avião”, comenta.
Em busca de uma vida mais tranquila, o executivo aos 60 anos se encantou com o conjunto de vinhedos, ovelhas, olival e nogueiras, junto de uma floresta com gamos, veados, pássaros e morcegos no Alentejo. Daí oferecer programas de enoturismo, que finalizam com degustação de vinhos. “Nosso foco é a qualidade dos vinhos”, salienta Diogo Costeira, diretor da empresa, que exporta para o Brasil, Estados Unidos, Suíça e França.
Vinícolas do Alentejo A Mainova produz, desde 2044, vinhos e azeites com foco na sustentabilidade
Mainova é um projeto familiar localizado em Vimiero a 1h30 de Lisboa e meia hora de Évora, cujo nome se refere à filha mais nova da família que adquiriu a propriedade 15 anos atrás e passou a produzir
vinho e azeite há apenas quatro, conta Bárbara Monteiro, ela própria a homenageada, filha mais nova de três irmãs. Produz seis variedades de vinho – branco, tinto e rosé – , e duas de azeite, de forma sustentável. Alguns vêm em garrafas de vidro reciclado.
São produzidos de acordo com o regime biológico e integrado, o que resulta em pouca intervenção, baixos sulfurosos e majoritariamente veganos. Barbara, que define a adega como “galeria de fazer vinho”, organiza várias experiências degustativas, desde piquenique à sombra das oliveiras, algumas do tempo de Cristo com mais de 2.500 anos, até jantar com o renomado chef João Narigueta, dono do Híbrido, em Évora. Ele pertence a nova geração que busca renovar a tradição gastronômica com
foco na sustentabilidade e no respeito pelo produto.
Com adegas tão próximas umas das outras é possível se hospedar em Évora e visitar cada dia novas opções para conhecer o vinho alentejano. O Vila Galé Évora é uma alternativa. Pertence ao segundo maior grupo hoteleiro de Portugal e está presente no Brasil.
Santa Vitória é uma empresa do grupo hoteleiro, fundada em 2002, que produz vinhos e azeites de qualidade superior em Beja. No topo está o tinto Inevitável elaborado só em anos excepcionais. Os visitantes podem acompanhar toda a produção e terminar o dia com uma prova dos rótulos e azeites, quase todos disponíveis nas operações do grupo que somam 45 hotéis em Portugal, Brasil, Cuba e Espanha.
O próximo a ser inaugurado no Brasil é Vila Galé Collection Ouro Preto, em maio e em novembro, o Vila Galé Collection Amazônia em Belém do Pará. Para 2026, estão previstas mais quatro unidades, duas em Alagoas e duas no Maranhão, elevando para 17 o número de empreendimentos no país. É assim que o grupo lusitano compartilha o branco macio dos lençóis e toalhas servindo também aqui as melhores castas do Alentejo.
A jornalista viajou a convite da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana
” name=”Botão para direita” aria-label=”Botão para direita”>
Seca, mar caribenho e ondas de calor: no último fim de semana do verão, veja o que marcou a estação no Rio

O verão que começa a se despedir não foi nada igual àquele que passou. O calorão é sempre esperado, mas as máximas bateram recordes. As águas de março, outra marca da estação, demoraram a cair. Antes, em fevereiro, o Rio, pela primeira vez, atingiu o nível 4 de calor — penúltimo estágio do protocolo de enfrentamento a altas temperaturas criado pela prefeitura há sete meses. Na temporada que se encerra no dia 20, a cidade foi dos eventos climáticos extremos à felicidade ardente do carnaval e da comemoração do Oscar de Melhor Filme Internacional de “Ainda estou aqui”: o imóvel na Urca que serviu de locação para o longa virou atração turística e vai ser transformado na Casa do Cinema Brasileiro. Antes de dar as boas-vindas ao outono, saiba o que mais esquentou as rodas de conversa nos últimos três meses.
Secura
Fevereiro foi o mês mais seco já registrado na história da cidade desde o monitoramento iniciado em 1977: a média de chuva esperada, de 123,3mm, não passou de 0,6mm. Em pelo menos nove bairros, não caiu uma gota entre 31 de janeiro e 9 de março. Vidigal, Rocinha, Copacabana e Jardim Botânico, na Zona Sul; Grajaú e Tijuca/Muda, na Zona Norte; e Barra/Barrinha e Sepetiba, na Zona Oeste, tiveram dias de deserto. Um dos culpados foi o fenômeno La Niña, que costuma trazer chuvas e clima ameno, mas foi mais fraco este ano. Estacionado sobre o Rio, um bloqueio atmosférico quente também não ajudou: impediu a passagem de todas as frentes frias.
É fogo
O corpo de bombeiros informou que o número de queimadas subiu mais de 435% em comparação ao notificado em 2024. Mais de 6 mil incêndios em vegetação foram registrados desde o início do verão.
O ‘muso’
Nos últimos dias da primavera e nos primeiros do verão, o mar estava para peixe, entre outras espécies. Um lobo-marinho parou para descansar na Praia de Ipanema, ganhou o carinho dos banhistas e o apelido de Joca. Dias depois, foi visto em Niterói, Maricá e Arraial do Cabo.
— Todo ano nós esperamos ter a ocorrência de lobos-marinhos na costa do Rio de Janeiro. Costumam surgir ao longo do segundo semestre, em geral entre o inverno e a primavera. Nada mais é do que um momento de descanso para o animal — explica Rafael Ramos Carvalho, biólogo do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua) da Uerj.
Réveillon estrelado
Pela primeira vez, o Rio teve na virada do ano uma sequência de shows estrelados. Caetano Veloso e Maria Bethânia abriram a última noite de 2024 com a mesma apresentação da turnê com a qual os irmãos rodaram o Brasil. A festa também marcou a estreia do axé de Ivete Sangalo no palco do réveillon do Rio, mas não foi só: ainda teve Anitta com seu Funk Generation e Xand Avião cantando forró. No Leme, um palco gospel agradou a milhares de fiéis. A programação do festejo foi preparada para todos os públicos e credos.
A casa do cinema
A residência da Rua Roquete Pinto 7, na Urca, deixou de ser um endereço comum e virou ponto turístico reconhecido pelo Google após Fernanda Torres vencer o Globo de Ouro por “Ainda estou aqui”, em janeiro. A casa reproduz, no filme, o local onde viveram Eunice Paiva e o deputado Rubens Paiva. Em março, mais uma glória: o Oscar de filme internacional, que levou Eduardo Paes a criar ali a Casa do Cinema Brasileiro.
Carnaval de três dias
Outra primeira vez do Rio durante a estação mais quente do ano foi a realização dos três dias de desfiles das escolas de samba do Grupo Especial. A nova divisão, com quatro agremiações por noite, agradou ao público e a especialistas, mas a logística pós-desfile requer ajustes.
Mar caribenho
Águas cristalinas do Leme ao Pontal causaram sensação em muitos dias de fevereiro. A cor do mar viralizou, e até as águas da Baía de Guanabara ganharam adeptos. Antes pouco explorada, a Praia da Glória colecionou resultados positivos nos boletins de balneabilidade do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) no fim do ano passado, atraindo novos frequentadores.
O ‘mala’ da vez
O banhista que chega às areias com sua caixa de som em volume altíssimo foi eleito o “mala do verão”. A atitude, além de pouco civilizada, proibida por decreto municipal, fez Eduardo Paes (PSD) circular pela orla, advertir infratores e prometer um “choque de civilidade” para 2025.
Alta no consumo de bar
Apesar da despedida de redutos tradicionais como o Bar dos Chicos, no Maracanã, o setor de bares e restaurantes teve resultados positivos. A cidade do Rio registrou faturamento 20% superior ao do ano passado, segundo a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).
A grande roubada
O verão dos superlativos também afetou as ocorrências criminais. Só em janeiro, o número de roubos de veículos aumentou 43%, o maior número desde 2020. O índice de roubo de celular também bateu recorde no mesmo intervalo: subiu 39%. Já os roubos em ônibus no primeiro mês de 2025 cresceu 23%, o maior número desde 2021. Só durante os dias de carnaval, a Polícia Militar fez 786 prisões em flagrante, 16 delas com a ajuda das câmeras de reconhecimento facial espalhadas pela cidade.
Calor excessivo
Em janeiro, pela primeira vez desde a criação do protocolo de calor pela prefeitura, o Rio alcançou o nível 4. Este patamar é atingido quando as temperaturas atingem de 40°C a 44°C, com previsão de permanência ou aumento por ao menos três dias seguidos. Segundo a Secretaria municipal de Saúde, o calor na cidade já levou mais de 5 mil pessoas a buscar atendimento médico em unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) desde o início do ano.
Praia noturna
As altas temperaturas também levaram os banhistas a esticar o tempo nas praias, curtindo a orla mesmo depois de o sol ir embora. Apesar da experiência atraente, pelo ineditismo para alguns cariocas e turistas, houve impacto negativo: desaconselhável, o banho de mar noturno causou 12 mortes por afogamento em dois meses de 2025.
Inscreva-se na Newsletter: Notícias do Rio
Inscrever
Casal brasileiro detido em aeroporto de Miami volta ao Brasil sem as malas; entenda

O casal de brasileiros que ficou preso no Aeroporto Internacional de Miami, nos Estados Unidos, voltou para o Brasil sem as bagagens.
Beatriz e Rafael explicaram que não tiveram mais retorno da American Airlines após questionarem a localização das malas e serem maltratados pelos funcionários da companhia aérea mais uma vez.
Por meio de nota, a empresa afirmou que as bagagens estão aguardando a retirada no aeroporto porque os passageiros foram detidos por autoridades locais.
O casal de brasileiros que ficou preso no Aeroporto Internacional de Miami voltou para o Brasil sem as bagagens. Ao g1, Beatriz Rapoport de Campos Maia, de 29 anos, e o noivo Rafael Novaes Seirafe, de 40, explicaram que não tiveram mais retorno da American Airlines após questionarem a localização das malas e serem maltratados pelos funcionários da companhia aérea mais uma vez.
Por meio de nota, a empresa não respondeu sobre as tentativas de contato do casal, mas afirmou que as bagagens aguardam retirada no aeroporto uma vez que os passageiros foram detidos pelas autoridades locais.
Os brasileiros são de Santos, no litoral de São Paulo. O voo deles saiu de Guarulhos e fez conexões em Brasília e Miami, onde a confusão aconteceu e eles passaram uma noite detidos. O destino do casal era Cancún, no México, para comemorar o noivado.
Eles retornaram ao Brasil com uma outra companhia. “Foi uma sensação muito diferente porque não precisamos passar pelo setor da American Airlines, onde eles já estavam tratando a gente muito mal quando tentamos entrar em contato para questionar onde as nossas malas estariam”, explicou Rafael.
Beatriz acrescentou que a única solicitação da empresa aérea foi “abrir um chamado”. Ela afirmou que seguiu a orientação, mas não recebeu contato para a recuperação das bagagens. “Ainda não devolveram as malas. Não conseguimos resolver a situação e nem sabem onde que está”, disse.
Relembre o caso
Com base em informações da polícia, a imprensa local afirmou que a detenção ocorreu porque os brasileiros foram impedidos de embarcar e jogaram café em uma funcionária da empresa aérea.
O casal negou essa versão e disse que os funcionários rejeitaram o embarque depois de questionarem se eles sabiam falar inglês, já que os dois haviam comprado assentos na saída de emergência do avião.
Beatriz e Rafael disseram que foram agredidos por seguranças no aeroporto e divulgaram imagens que mostram escoriações nos corpos de ambos.
“Eu fiquei com medo de acontecer algo pior, de matarem ele, porque simplesmente foram três policiais voando em cima dele, desnecessariamente, sendo que ele não reagiu nem nada. E, do nada, chegaram mais dois para segurar, eu fiquei muito assustada”, disse Beatriz.
“Eu fiquei com medo de acontecer algo pior, de matarem ele, porque simplesmente foram três policiais voando em cima dele, desnecessariamente, sendo que ele não reagiu nem nada. E, do nada, chegaram mais dois para segurar, eu fiquei muito assustada”, disse Beatriz.
Ingrid Guimarães
O casal se solidarizou com a atriz Ingrid Guimarães, que relatou uma “situação abusiva” com a mesma empresa em um voo de Nova York para o Rio de Janeiro. “Sentimos que não estamos sozinhos nessa e que tem muitas outras vítimas da mesma companhia”, afirmou Beatriz.
Ingrid relatou ter sido comunicada por uma funcionária de que teria que deixar seu assento na classe “Premium Economy” para cedê-lo a um passageiro da classe executiva. A atriz pagou pela vaga e disse que foi coagida pelo staff da empresa após afirmar que não deixaria o lugar.
“Eles começaram a me coagir dizendo que eu nunca mais viajaria de American Airlines. Eu disse: ‘Tudo bem’. Aí foram aparecendo 3 pessoas, todas me ameaçando e dizendo que o voo não ia sair”, contou.
“Não satisfeita, ela [funcionária da companhia] anunciou no microfone num voo cheio de brasileiros que todo mundo ia ter que descer por causa de uma passageira. Uma delas foi lá e ainda apontou quem eu era. Ou seja, eles colocaram um voo contra mim”, afirmou a artista.
“Não satisfeita, ela [funcionária da companhia] anunciou no microfone num voo cheio de brasileiros que todo mundo ia ter que descer por causa de uma passageira. Uma delas foi lá e ainda apontou quem eu era. Ou seja, eles colocaram um voo contra mim”, afirmou a artista.
O que diz a companhia aérea sobre o caso do casal?
O g1 questionou a American Airlines sobre a necessidade da fluência em inglês para ocupar assentos na saída de emergência do avião. A assessoria da empresa afirmou que a regulação americana poderia explicar mais sobre o caso.
As regras americanas preveem que quem ocupar locais próximos às saídas de emergências deve “compreender as instruções para operar a saída” e ser capaz de transmitirem informações oralmente a outros passageiros.
Questionada, a American Airlines não comentou sobre o suposto incidente com o café e também sobre o banimento do casal dos serviços da companhia.
Em nota, a empresa afirmou que, no dia do ocorrido, “autoridades locais compareceram ao portão de embarque para verificar a presença de dois passageiros que estavam causando tumulto”. A companhia ainda disse que não tolera atos de violência.
E sobre o caso de Ingrid Guimarães?
Procurada pelo g1, a American Airlines informou que a companhia estava em contato com a atriz: “Nosso objetivo é proporcionar uma experiência de viagem positiva e segura para todos os nossos passageiros. Um membro da nossa equipe está entrando em contato com a cliente para entender mais sobre sua experiência e resolver a questão”.
VÍDEOS: g1 em 1 minuto Santos
Carnaval deve movimentar 6,64 milhões de passageiros nos principais aeroportos e rodoviárias do país

Carnaval deve movimentar 6,64 milhões de passageiros nos principais aeroportos e rodoviárias do país (Foto: Uai Turismo)
A folia do Carnaval, que já toma conta dos principais palcos da festa no Brasil, promete elevar o número de visitantes nos destinos nacionais. Segundo levantamento do Ministério do Turismo junto às principais operadoras de aeroportos e empresas de transporte rodoviário, mais de 6,64 milhões de passageiros viajarão no território nacional em aviões ou ônibus, reforçando o impacto econômico do período. O número é 9% superior ao registrado no feriado de 2024: 6,1 milhões.
LEIA TAMBÉM: Carnaval, turismo e projetos: a arte de adaptar com ‘ tailoring ‘
Nos 17 terminais da CCR Aeroportos, que englobam alguns dos destinos carnavalescos de maior destaque, foram disponibilizados 819,1 mil assentos em 5,1 mil voos entre 28 de fevereiro e 05 de março, crescimento de 5% em relação a mesma época do ano passado. Recife (PE) é um dos destaques na região Nordeste, com a oferta de 191,9 mil vagas nas aeronaves. Já o Aeroporto de Congonhas, na cidade de São Paulo (SP), teve um acréscimo de 6%, chegando a 429,7 mil lugares.
Também no estado de São Paulo, o Aeroporto de Guarulhos estima receber mais de 943 mil passageiros durante a semana que marca a realização do Carnaval, entre os dias 27 de fevereiro e 06 de março, um aumento de 8% ante os 870 mil registrados no último ano. Outro terminal aéreo paulista, o de Viracopos, espera a circulação de 345,2 mil viajantes, contra os 305 mil verificados ao longo do mesmo período do ano passado.
O ministro do Turismo, Celso Sabino, ressalta o empenho do governo federal para ampliar a conectividade aérea, favorecendo o aumento da movimentação de visitantes. “Em parceria com as empresas aéreas, por meio do Conheça o Brasil Voando, estamos reforçando cada vez mais a ligação aérea entre os nossos destinos. Isso proporciona um crescente número de opções para o brasileiro fazer as malas e aproveitar os variados atrativos nacionais no Carnaval”, observa.
LEIA TAMBÉM: Ainda dá tempo de viajar no Carnaval?
Já no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro (RJ), a concessionária responsável tem a expectativa de 674 mil passageiros de 25 de fevereiro a 10 de março, uma alta de 22%. Brasília (DF) espera a movimentação de 260 mil viajantes, quantidade cerca de 7% superior à de 2024, enquanto o terminal de Confins, em Belo Horizonte (MG), aguarda a circulação de 215 mil pessoas de 27 de fevereiro a 06 de março, um aumento de 4% ante o ano anterior.
Pelo Brasil
Em Salvador (BA), um dos ícones do Carnaval brasileiro, a concessionária do aeroporto local estima 125,9 mil passageiros domésticos. Já a CCR, que gere 14 terminais no país, espera mais de 262 mil viajantes no período de Momo, com cerca de 2.246 pousos e decolagens. O Aeroporto de Curitiba (PR) deve receber o maior número, 80,4 mil, seguido por Goiânia (GO), com 44,7 mil, e Foz do Iguaçu (PR), onde a previsão é de 31,6 mil passageiros.
Na cidade de Porto Alegre (RS), a empresa responsável pelo terminal aéreo calcula a chegada de 95 mil visitantes de 28 de fevereiro a 05 de março, número que deve atingir 84 mil no Aeroporto de Fortaleza (CE), também administrado pela mesma concessionária. Belém (PA), por sua vez, aguarda a passagem de 57 mil passageiros a bordo de 440 voos, segundo a companhia que gere o terminal, um avanço de 6,5% na comparação com 2024.
Infraero
Os 11 aeroportos administrados pela Infraero com voos comerciais regulares no país devem receber cerca de 120 mil passageiros entre 28 de fevereiro e 05 de março, viajando em 1.041 voos. No Santos Dumont, no Rio de Janeiro (RJ), são estimados 104,6 mil visitantes, um crescimento de 38% ante 2024. Já para o Aeroporto de Jericoacoara (CE), o segundo mais movimentado da rede da estatal, há a previsão de 5.180 passageiros em 34 voos programados.
LEIA TAMBÉM: Atrium da Liberdade: Um respiro na folia do Carnaval de Belo Horizonte
Rodoviário
A ClickBus, plataforma de passagens rodoviárias, projeta a venda recorde de até 1 milhão de bilhetes no Carnaval, um crescimento de 30% em relação a 2024. O fluxo se concentra no Rio de Janeiro (RJ) e em São Paulo (SP), para os quais a demanda aumentou 41,9% e 37,5%, respectivamente. Já Recife (PE) apresentou a maior alta nas buscas por passagens terrestres, de 75,5%, enquanto Belo Horizonte (MG) contabilizou avanço de 72,5% na procura.
Alta no faturamento
Os números corroboram previsões de forte impacto econômico do Carnaval no país. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projeta faturamento de R$ 12,03 bilhões, 2,1% superior a 2024 e o mais alto desde 2015. Segundo dados do Ministério do Turismo, com base em informações de órgãos públicos locais, 53 milhões de pessoas devem curtir a festa nas ruas de norte a sul do Brasil, um aumento de 8% em relação ao ano passado.
Siga o @portaluaiturismo no Instagram e no TikTok @uai.turismo
Carnaval deve movimentar 6,64 milhões de passageiros nos principais aeroportos e rodoviárias do país

Carnaval deve movimentar 6,64 milhões de passageiros nos principais aeroportos e rodoviárias do país (Foto: Uai Turismo)
A folia do Carnaval, que já toma conta dos principais palcos da festa no Brasil, promete elevar o número de visitantes nos destinos nacionais. Segundo levantamento do Ministério do Turismo junto às principais operadoras de aeroportos e empresas de transporte rodoviário, mais de 6,64 milhões de passageiros viajarão no território nacional em aviões ou ônibus, reforçando o impacto econômico do período. O número é 9% superior ao registrado no feriado de 2024: 6,1 milhões.
LEIA TAMBÉM: Carnaval, turismo e projetos: a arte de adaptar com ‘ tailoring ‘
Nos 17 terminais da CCR Aeroportos, que englobam alguns dos destinos carnavalescos de maior destaque, foram disponibilizados 819,1 mil assentos em 5,1 mil voos entre 28 de fevereiro e 05 de março, crescimento de 5% em relação a mesma época do ano passado. Recife (PE) é um dos destaques na região Nordeste, com a oferta de 191,9 mil vagas nas aeronaves. Já o Aeroporto de Congonhas, na cidade de São Paulo (SP), teve um acréscimo de 6%, chegando a 429,7 mil lugares.
Também no estado de São Paulo, o Aeroporto de Guarulhos estima receber mais de 943 mil passageiros durante a semana que marca a realização do Carnaval, entre os dias 27 de fevereiro e 06 de março, um aumento de 8% ante os 870 mil registrados no último ano. Outro terminal aéreo paulista, o de Viracopos, espera a circulação de 345,2 mil viajantes, contra os 305 mil verificados ao longo do mesmo período do ano passado.
O ministro do Turismo, Celso Sabino, ressalta o empenho do governo federal para ampliar a conectividade aérea, favorecendo o aumento da movimentação de visitantes. “Em parceria com as empresas aéreas, por meio do Conheça o Brasil Voando, estamos reforçando cada vez mais a ligação aérea entre os nossos destinos. Isso proporciona um crescente número de opções para o brasileiro fazer as malas e aproveitar os variados atrativos nacionais no Carnaval”, observa.
LEIA TAMBÉM: Ainda dá tempo de viajar no Carnaval?
Já no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro (RJ), a concessionária responsável tem a expectativa de 674 mil passageiros de 25 de fevereiro a 10 de março, uma alta de 22%. Brasília (DF) espera a movimentação de 260 mil viajantes, quantidade cerca de 7% superior à de 2024, enquanto o terminal de Confins, em Belo Horizonte (MG), aguarda a circulação de 215 mil pessoas de 27 de fevereiro a 06 de março, um aumento de 4% ante o ano anterior.
Pelo Brasil
Em Salvador (BA), um dos ícones do Carnaval brasileiro, a concessionária do aeroporto local estima 125,9 mil passageiros domésticos. Já a CCR, que gere 14 terminais no país, espera mais de 262 mil viajantes no período de Momo, com cerca de 2.246 pousos e decolagens. O Aeroporto de Curitiba (PR) deve receber o maior número, 80,4 mil, seguido por Goiânia (GO), com 44,7 mil, e Foz do Iguaçu (PR), onde a previsão é de 31,6 mil passageiros.
Na cidade de Porto Alegre (RS), a empresa responsável pelo terminal aéreo calcula a chegada de 95 mil visitantes de 28 de fevereiro a 05 de março, número que deve atingir 84 mil no Aeroporto de Fortaleza (CE), também administrado pela mesma concessionária. Belém (PA), por sua vez, aguarda a passagem de 57 mil passageiros a bordo de 440 voos, segundo a companhia que gere o terminal, um avanço de 6,5% na comparação com 2024.
Infraero
Os 11 aeroportos administrados pela Infraero com voos comerciais regulares no país devem receber cerca de 120 mil passageiros entre 28 de fevereiro e 05 de março, viajando em 1.041 voos. No Santos Dumont, no Rio de Janeiro (RJ), são estimados 104,6 mil visitantes, um crescimento de 38% ante 2024. Já para o Aeroporto de Jericoacoara (CE), o segundo mais movimentado da rede da estatal, há a previsão de 5.180 passageiros em 34 voos programados.
LEIA TAMBÉM: Atrium da Liberdade: Um respiro na folia do Carnaval de Belo Horizonte
Rodoviário
A ClickBus, plataforma de passagens rodoviárias, projeta a venda recorde de até 1 milhão de bilhetes no Carnaval, um crescimento de 30% em relação a 2024. O fluxo se concentra no Rio de Janeiro (RJ) e em São Paulo (SP), para os quais a demanda aumentou 41,9% e 37,5%, respectivamente. Já Recife (PE) apresentou a maior alta nas buscas por passagens terrestres, de 75,5%, enquanto Belo Horizonte (MG) contabilizou avanço de 72,5% na procura.
Alta no faturamento
Os números corroboram previsões de forte impacto econômico do Carnaval no país. A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) projeta faturamento de R$ 12,03 bilhões, 2,1% superior a 2024 e o mais alto desde 2015. Segundo dados do Ministério do Turismo, com base em informações de órgãos públicos locais, 53 milhões de pessoas devem curtir a festa nas ruas de norte a sul do Brasil, um aumento de 8% em relação ao ano passado.
Siga o @portaluaiturismo no Instagram e no TikTok @uai.turismo
‘Vale tudo’: trama de Celina sofrerá uma alteração em relação à versão original. Saiba qual

O remake de “Vale tudo” abordará a vida afetiva de Celina (Malu Galli). Na versão original, ela não tinha relacionamentos amorosos e dedicava a maior parte do tempo aos sobrinhos.
Celina é irmã da vilã Odete Roitman (Débora Bloch) e tia de Afonso (Humberto Carrão) e Helena (Paolla Oliveira). Ela vai morar com os sobrinhos numa mansão num ponto elevado do Rio. A localização não será especificada. Quando chegar de Paris, Odete frequentará bastante a casa, mas vai morar num hotel.
Quem também faz parte desse núcleo é Marco Aurélio (Alexandre Nero), ex-marido de Heleninha, com quem teve um filho, Tiago (Pedro Waddington). Ele é um alto executivo na empresa de aviação de Odete, a TCA.
A trama principal gira em torno de Raquel (Taís Araujo), que se muda de Foz do Iguaçu para o Rio em busca da filha, Maria de Fátima (Bella Campos), de quem terá levado um golpe. A moça se envolverá com o inescrupuloso César (Cauã Reymond), enquanto sua mãe se apaixonará por Ivan (Renato Góes).
A trama, de autoria de Manuela Dias, com direção artística de Paulo Silvestrini, estreará em 31 de março na TV Globo. A música da abertura será uma versão atualizada de “Brasil”, interpretada por Gal Costa.
‘Vale tudo’: trama de Celina sofrerá uma alteração em relação à versão original. Saiba qual

O remake de “Vale tudo” abordará a vida afetiva de Celina (Malu Galli). Na versão original, ela não tinha relacionamentos amorosos e dedicava a maior parte do tempo aos sobrinhos.
Celina é irmã da vilã Odete Roitman (Débora Bloch) e tia de Afonso (Humberto Carrão) e Helena (Paolla Oliveira). Ela vai morar com os sobrinhos numa mansão num ponto elevado do Rio. A localização não será especificada. Quando chegar de Paris, Odete frequentará bastante a casa, mas vai morar num hotel.
Quem também faz parte desse núcleo é Marco Aurélio (Alexandre Nero), ex-marido de Heleninha, com quem teve um filho, Tiago (Pedro Waddington). Ele é um alto executivo na empresa de aviação de Odete, a TCA.
A trama principal gira em torno de Raquel (Taís Araujo), que se muda de Foz do Iguaçu para o Rio em busca da filha, Maria de Fátima (Bella Campos), de quem terá levado um golpe. A moça se envolverá com o inescrupuloso César (Cauã Reymond), enquanto sua mãe se apaixonará por Ivan (Renato Góes).
A trama, de autoria de Manuela Dias, com direção artística de Paulo Silvestrini, estreará em 31 de março na TV Globo. A música da abertura será uma versão atualizada de “Brasil”, interpretada por Gal Costa.
A infância de Bolsonaro entre quilombolas, guerrilheiros e a rica família de Rubens Paiva

[Esta reportagem foi originalmente publicada em 16 de janeiro de 2019, quando Jair Bolsonaro era presidente. Foi republicada em novembro de 2024, quando voltou a circular por conta da repercussão do filme ‘Ainda Estou Aqui’, baseado em livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, citado neste texto.]
Em Eldorado Paulista, há uma pequena praça onde os sinos da igreja tocam de meia em meia hora. Ali, debaixo de árvores de copas largas, moradores conversam preguiçosamente, protegendo-se do sol. As lojas e restaurantes dos arredores ficam vazios nas tardes quentes, quando a cidade parece inabitada. Só meninos arriscam-se na rua, rumo ao rio Ribeira.
Nada nessa cena fala de Jair Bolsonaro. Mas ele está por toda parte.
Para encontrar vestígios do presidente em Eldorado, no interior de São Paulo, onde ele morou dos 11 aos 18 anos, é necessário olhar para além do espaço. É preciso recorrer à história.
Naquela praça, em 1970, o guerrilheiro Carlos Lamarca baleou três pessoas em um tiroteio com a polícia militar enquanto Jair, então com 15 anos, corria para casa. O adolescente, que havia saído da escola, testemunhou de perto a operação de caça a Lamarca, que o levou a alistar-se no Exército.
Dentro da igreja, durante anos, negros dos quilombos de Eldorado ocuparam os últimos bancos, com medo de serem expulsos da frente do altar – os mesmos quilombolas que, para Bolsonaro, “não servem nem para procriar”, como disse em uma palestra em 2017.
Uma das torres do santuário foi doada por Jaime Almeida Paiva, homem mais rico e “coronel” da pobre Eldorado por vinte anos. Dono de uma das maiores fazendas do Vale do Ribeira, “Dr. Jaime” era pai do deputado opositor à ditadura e desaparecido político Rubens Paiva, alvo de acusações de Bolsonaro durante toda a vida pública do hoje presidente.
Apesar de Bolsonaro ter nascido em Glicério e vivido em várias partes do Estado de São Paulo, é em Eldorado que alguns de seus temas favoritos têm origem. A BBC News Brasil foi à cidade de 15 mil habitantes para narrar os fatos que ajudaram a formar as ideias do novo mandatário do país.
Casa da família Paiva era vista como “mansão” pelos habitantes da cidade
O domínio dos Paiva
Bolsonaro é um grande crítico de Rubens Paiva, ex-deputado federal que fez oposição ao regime militar e desapareceu em 1971. Paiva aparece com frequência nas falas do presidente sobre a ditadura, um dos temas recorrentes em seus discursos.
No plenário da Câmara, Bolsonaro chegou a negar que o deputado tenha morrido durante uma sessão de tortura, como foi atestado pela Comissão Nacional da Verdade, e, ao longo dos anos, fez várias acusações contra ele. Uma delas é a de que Rubens Paiva ajudou o ex-capitão do Exército Carlos Lamarca a montar uma guerrilha no Vale do Ribeira, onde fica Eldorado. Não há provas de que essa colaboração tenha acontecido.
“Por coincidência, a família de Rubens Paiva tinha uma fazenda na cidade de Eldorado Paulista, no Vale do Ribeira, São Paulo, chamada Fazenda Caraitá. O sr. Rubens Paiva fez com que o guerrilheiro, traidor e desertor Lamarca ocupasse a sua fazenda e lá fizesse uma base de guerrilha”, disse Bolsonaro em sessão de 2013.
Eldorado Paulista, onde o presidente passou toda a adolescência, é uma pequena cidade do interior de SP
A fazenda Caraitá sustentou a economia de Eldorado por mais de vinte anos. O “doutor” Jaime Paiva, como moradores ainda chamam o empresário de Santos que se tornou um grande fazendeiro do Vale do Ribeira, começou a comprar terras ali em 1941. Sua propriedade só foi vendida em 1975, depois de Bolsonaro mudar-se para Resende (RJ), onde começou sua carreira militar.
Enquanto o presidente morava na cidade – e por muitos anos antes disso –, Jaime Paiva era o chefe de boa parte da população. Ele tinha plantações de banana e laranja, criações de gado e uma serraria de móveis, além de ser responsável pela vida social do lugar: a festa da Rainha da Laranja, a mais importante do ano, era organizada pela família.
Mais do que uma liderança informal, Paiva foi prefeito duas vezes. Na primeira, de 1956 a 1959, fez a ponte sobre o rio Ribeira e uma das escolas locais. Na segunda, em 1968, eleito pela Arena, partido da ditadura, ficou pouco menos de um ano.
Jaime de Almeida Paiva ajudou a desenvolver Eldorado, mas também era chamado de coronel
“Teve uma Eldorado antes e uma depois do Paiva”, diz Nilzilene Araújo de Oliveira, de 56 anos, vice-diretora da escola Dr. Jayme Almeida Paiva, onde Bolsonaro estudou até ir para o Exército, em 1973. Enquanto o presidente e Nilzene eram alunos, no entanto, o colégio chamava-se Ginásio Escolar de Eldorado Paulista. A homenagem ao “doutor” veio só em 1976.
“Mas do ponto de vista econômico, Eldorado desenvolveu muito com o velho Paiva”, Nilzilene continua. “Embora ele fosse forte, bem firme… mas isso era necessário porque ele era capitalista.”
Enquanto ela fala, a ficha do ex-colega está à mostra sobre a mesa da secretaria. O fato parece deixar o diretor da escola, Domingos Pontes Junior, incomodado. “Melhor não tirar foto, não. Não tem autorização da família”, ele diz, sentado ao lado da vice. “Melhor só anotar. Sabe, são notas parciais, no segundo ano ele foi melhor”, Domingos sacode a cabeça.
No primeiro ano do ensino médio, Estudos Sociais (combinação de geografia e história) foi a melhor matéria de Bolsonaro: 8,7. Em Educação Moral e Cívica, disciplina criada durante a ditadura e que exaltava o nacionalismo, teve um de seus piores desempenhos (6,8), ao lado de Química (6,5).
Não há registros dos filhos ou netos de Paiva nos mesmos arquivos. Rubens Paiva tinha 12 anos quando o pai comprou as primeiras terras por ali – ele e os irmãos estudaram em colégios de elite em São Paulo.
Escola onde Bolsonaro estudou hoje leva o nome do pai de Rubens Paiva
“Não se tinha acesso ao Paiva, só aos empregados”, Nizilene retoma o assunto. “Eram muito ricos… mas ele fazia a festa da Rainha da Laranja e todos iam.”
Pouco antes, na mesma secretaria, um professor de História aposentado falava dos “dois lados” de Paiva.
“Foi um marco histórico – para o bem e para o mal. Como todo mundo trabalhava lá, quando a fazenda fechou, a cidade entrou em decadência. Mas ele era amado e odiado, sabe?”, disse José Milton Galindo.
O tom é frequente nas declarações sobre o empresário que fez fortuna em Santos, como despachante. De um lado, ele era o homem visionário que alargou as ruas da antiga área de garimpo – Eldorado foi batizada assim em razão do primeiro ciclo do ouro no Brasil –, desenvolvendo o urbanismo local. De outro, era o coronel autoritário que não conversava com o povo, trazia empregados do Nordeste no pau de arara e pagava os funcionários com “boró”, moeda própria que só valia nos comércios da região.
Colega de Bolsonaro na escola, Antônio diz que a cidade via os Paiva com ‘outros olhos’
“Quando tinha a festa da Laranja, se ele cismava com a pessoa, quebrava o copo na mão dela com a bengala. Andava cheio de capangas em volta”, diz Antônio Carlos de Melo Cunha, de 64 anos, engenheiro agrônomo aposentado e amigo de Jair Bolsonaro dos tempos de colégio. Foi de seu avô que Paiva comprou as terras da fazenda.
Em livro sobre o caso de Rubens Paiva, Segredo de Estado, o jornalista Jason Tércio narra que até o deputado chamava o pai de “coronel” e discutia com ele sobre política. Em diálogo reconstruído por Tércio durante a Ceia de Natal de 1970, na fazenda Caraitá, Jaime teria dito a Rubens: “a única política que tu deve fazer com os militares é a política da boa vizinhança”.
Filho do deputado, o escritor Marcelo Rubens Paiva conta que o pai era brigado com o avô e por isso ia pouco à fazenda. Ele diz que não sabe responder aos comentários sobre Jaime, porque morava no Rio com os pais e a irmã.
“Querida, meu avô foi prefeito. Não sei se quebrou copos nas pessoas.”
Nessa época, Rubens havia voltado do exílio há anos, depois de ter seu mandato pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) cassado após o golpe de 1964, e trabalhava como engenheiro civil. No entanto, ele ainda ajudava perseguidos políticos a sair do país e mantinha contato com exilados.
Menos de um mês depois daquele Natal, em janeiro de 1971, Rubens Paiva seria levado por militares para depor e não voltaria mais.
Rubens e Jaime Paiva teriam passado último Natal antes do desaparecimento do deputado na fazenda Caraitá
A casa da fazenda – e o resto da cidade
“Ato Contínuo, 1970. Aí, eu entro na história”, disse Bolsonaro durante uma sessão da Câmara em setembro de 2014.
“Eu tinha 15 anos de idade e morava na cidade de Eldorado paulista. Ali – já mudou de nome – existia a Fazenda Caraitá. Proprietário: família Rubens Paiva. Rubens Paiva tinha uma chácara ali. Do cocoruto, do topo da cidade de Eldorado Paulista, cidade bastante pequena, via-se a chácara de Rubens Paiva, a montante do Ribeira de Iguape…”
A dois quilômetros do centro de Eldorado, a fazenda, que não se chama mais Caraitá nem pertence aos Paiva, ainda está de pé. Hoje ela é de um produtor de bananas, que usa a terra para plantação, mas não mora ali. Apesar de descuidado, o casarão de teto europeu mantém os ares de “mansão”, como era chamado pelo povo da cidade.
As paredes azuis, brancas na época de Rubens Paiva e Bolsonaro, ainda exibem as sacadas estreitas que permitiam aos hóspedes uma vista privilegiada do grande jardim e, à esquerda, dos hectares de mexericas e bananas.
Os quartos são oito ou nove, pequenos, segundo os filhos do atual proprietário, que oferecem apenas um tour pelo terreno porque a casa está fechada. Nele, há, como havia nos anos 1960, duas piscinas – adulta e infantil –, uma casa de hóspedes e outra de bonecas, uma casinha de cachorro em forma de castelo, e um mirante para dois lagos artificiais. Na casa de bonecas, de dois andares, com sala, cozinha e quarto com varanda, mesas e cadeiras em miniatura ocupam o espaço perto da porta, como se alguém ainda brincasse por lá.
Fazenda Caraitá tinha até o próprio dinheiro, segundo moradores
Antes de entrar pelo alto portão de ferro que demarca o espaço do casarão, percorre-se uma estrada de terra. Paralelas a ela, à direita e à esquerda, pequenas casas de arquitetura semelhante estão enfileiradas.
“Tinha dezenas de casas aqui”, diz um dos filhos do proprietário, ao parar sua caminhonete em frente ao portão. “Eram dos funcionários do Paiva. Isso aqui era uma cidade, tinha até escola.” A maior parte das construções está abandonada – poucas estão ocupadas por empregados do dono atual.
Sem muita gente por ali, o único barulho vem de Lala e Laica, cadelas pastor alemão que respiram ofegantes debaixo da caminhonete. “Como ficou sem vigia, o pessoal acabou roubando até os tijolos, por isso só tem essas”, o jovem diz, secando o suor da testa. A temperatura beira os 40ºC.
A relação de Eldorado com os Paiva era, de alguma forma, dividida pelo portão da fazenda. Do lado de fora, para além do bairro privado dos funcionários, a vida do povo seguia alheia aos luxos do casarão. O Vale do Ribeira era e ainda é uma das regiões mais pobres do Estado de São Paulo, com uma renda média de dois salários mínimos, segundo o IBGE.
Nos anos 1970, a situação era mais dramática. O emprego fora de Caraitá era escasso e o dinheiro, difícil. As famílias pobres se viravam como podiam: pescavam, vendiam produtos de porta em porta, cuidavam de fazendas.
No caso dos Bolsonaro, o patriarca Percy Geraldo Bolsonaro trabalhava como dentista prático: fazia extrações, obturações, próteses, mesmo sem ter instrução universitária. Percy era a única opção numa comunidade sem dentistas e chegou a ser indiciado em inquérito policial por “exercício ilegal de medicina, odontologia ou farmácia”, mas foi absolvido em 1973.
Boa parte das pessoas entrevistadas em Eldorado teve dentes extraídos por Percy, de quem lembram com carinho. “A gente era muito humilde na época, então os dentes iam estragando e o pai mandava tirar”, conta a vice-diretora Nilzilene. “Geraldo era uma pessoa maravilhosa. Quando eu tinha uns 8, 9 anos, fui tirar um dente com ele. Depois que acabou, ele disse para minha mãe: ‘Agora leva a menina pra tomar um sorvete’.”
Apesar de trabalhar muito, os ganhos de Percy Bolsonaro nem sempre eram suficientes para sustentar a mulher e os seis filhos. Fumando um cigarro atrás do outro no pequeno consultório, às vezes ficava até tarde da noite com o ‘buticão’ – um grande alicate de ferro – em mãos, arrancando molares. Ao final do serviço, era compreensivo com os clientes que não podiam pagar: quem não tivesse dinheiro, que desse galinhas ou porcos.
“Eles eram muito pobrezinhos, milha filha”, diz Lúcia Lima Melo, de 72 anos, do portão da casa onde mora há 47 anos, ao fim da entrevista com ela e seu marido, Reinaldo. Durante anos, eles foram vizinhos dos Bolsonaro, e Reinaldo tornou-se amigo de Percy.
Na conversa com a BBC News Brasil, ele contou que o dentista prático era conhecido por seu senso de humor e educação. Era atencioso, mas também não perdia a piada. Chamava os conhecidos de “morfiosos”, outro jeito de dizer “leprosos”, explicou o vizinho. Reinaldo riu ao lembrar as tiradas do amigo, como quando ele repetia que “preferia ter as filhas todas prostitutas do que filhos viados”.
‘Eles eram muito pobrezinhos’, diz Lúcia, ex-vizinha dos Bolsonaro, sobre a família
“Quantos quartos têm ali?”, a reportagem pergunta a Lúcia, ainda no portão. A antiga casa dos Bolsonaro, hoje pintada de azul claro, é a próxima, à direita.
“Acho que só dois”, ela responde, olhando para o lado.
“Então era pequeno para a família”, a reportagem diz.
“Eles não tinham dinheiro, não”, ela abaixa a voz. “Não faltava comida, mas bens eles não tinham: carro, casa. Eram pobres mesmo. Mas que bom que graças a Deus chegaram onde chegaram, né”, ela sorri por entre as barras de ferro.
Para ajudar em casa, Jair pescava e buscava maracujá no mato para vender, além de descarregar caminhões de adubo e, numa brincadeira cheia de desejo, procurava ouro nos ribeirões pela madrugada.
Vivendo no aperto, a maioria da população precisava coexistir com a riqueza dos Paiva, numa convivência descrita como amigável por alguns e distante por outros. Os últimos argumentam que a relação era boa só para os “puxa-sacos” da família, muitos deles membros da Igreja. Como Aracy, mulher de Jaime, era católica fervorosa, padres e coroinhas que iam rezar missa na fazenda acabavam se aproximando do casal.
“Fui amigo dos netos de Paiva. Conheci Rubens Paiva, convivi com Marcelo e os irmãos”, diz Antônio Avelino de Melo Cunha, policial aposentado e dono de uma pousada em Eldorado que hoje mora no litoral paulista.
“Na época, eu era coroinha e ia rezar missa na fazenda. Doutor Jaime e Dona Ceci (como Aracy era chamada) me convidavam para almoçar ou jantar com eles. Aí foi estreitando nossa amizade. Eu usava o lago para brincar, tinha um aquaplano. Ficava na piscina, tocava violão. Era uma fazenda-cidade.”
Para ajudar a família, Bolsonaro pescava e buscava maracujá no mato
Assim como Antônio, o agricultor Celso Luiz Leite, de 63 anos, cuja irmã casou com um dos irmãos de Bolsonaro, era coroinha. Ele se lembra de Aracy abraçando-o depois das missas. Se “doutor” Jaime tinha fama de durão, sua mulher era vista com benevolência.
“Quando o resto da família vinha para cá, nos finais de semana e férias, eu ia lá ajudar nas missas, já que o padre era puxa-saco. Mas ela era muito simpática”, diz Celso, sentado em seu sítio, às margens do Ribeira.
Celso dá de ombros ao falar que o fazendeiro “não dava muita bola para gente”.
“Só para a turma com mais grana… mas, por outro lado, era ele quem dava emprego.”
Apesar de não ser um cara “ruim”, como Celso repete, Jaime e sua família não eram sempre bem vistos pelos moradores. Entrevistados descreveram que nos meses de verão, quando filhos e netos visitavam a fazenda, era comum ver os Paiva cavalgando seus cavalos de raça pelas ruas.
Celso Leite foi coroinha quando criança e se aproximou dos Paiva ao rezar missas na fazenda Caraitá
Recostado em seu sofá, Antônio Carlos, um dos amigos de infância de Bolsonaro, tenta encontrar uma palavra para definir a família. “Eles eram… como eu posso dizer?”, ele coça a cabeça enquanto sua mulher o observa da porta da cozinha. “Eles eram… vistos com outros olhos! O pessoal via como gente rica, né.”
Antônio fala de uma vez em que visitou a fazenda para fazer companhia a uma das netas de Jaime Paiva, que estava se tratando de uma leucemia. Adolescentes, ele e a mulher foram até lá com alguns amigos para conversar com ela e tocar violão.
“Nessa época, íamos por causa da doença dela, mas não tínhamos amizade com eles, não”, diz sua mulher, Mara Cristina, apoiada no batente da porta. “Os jovens de lá não davam muita bola para os daqui.”
Por “lá” também passava Rubens Paiva que, segundo relatos dos moradores entrevistados, tinha uma chácara anexa à do pai com uma pista de pouso para chegar à cidade de avião. Após a publicação desta reportagem, o filho de Rubens Paiva, Marcelo Rubens Paiva, disse que a chácara não pertencia a seu pai, mas a seu tio Carlos e que a pista de pouso ficava na cidade vizinha de Registro e não em Eldorado. A BBC News Brasil foi ao cartório registro de móveis, onde não teve acesso aos documentos sobre as terras, mas apenas foi informada que a família começou a comprar terrenos na região em 1941 e vendeu a propriedade em 1975.
João Evangelista Correa diz que era convidado para jogar bola com Rubens Paiva
Um dos moradores de Eldorado mais próximos do presidente, o funcionário público aposentado João Evangelista Correa, conta do dia em que entregou um bolo a Rubens a pedido da confeiteira local. Ele e um colega caminharam os dois quilômetros até a fazenda na esperança de ganhar um trocado pelo serviço. Chegando lá, João diz que Rubens olhou irritado para os meninos: “o que vocês querem aqui? Falei que ia buscar na cidade”. Ao responderem que a confeiteira havia prometido uma gorjeta, teriam ouvido um “não” resoluto.
“Não tinha amizade com pobres”, diz João Evangelista, das cadeiras estofadas que ficam em sua garagem.
Ele é um dos poucos que narra interações de Bolsonaro com os Paiva, já que quando adolescente Jair não era um grande frequentador das festas da Rainha da Laranja ou do clube Caraitá, fundado pela família. Seus conhecidos dizem que ele preferia pescar a ir a bailes.
João conta que, apesar da eventual irritação, Rubens convidava os meninos para jogar futebol nas terras da família. Bolsonaro teria participado de algumas partidas.
Quando parlamentar, ao citar mais uma vez as supostas relações entre os Paiva e o guerrilheiro Carlos Lamarca, Bolsonaro disse que conheceu o ex-deputado.
“Eu sou paulista do Vale do Ribeira, de Eldorado. Ali conheci Rubens Paiva, com 10 anos de idade”, disse em sessão da Câmara de março de 2016.
Em discurso em março de 2016, Bolsonaro disse que conheceu Rubens Paiva aos dez anos
Além de jogar bola na fazenda de Rubens, Bolsonaro teria sido, nas palavras do agricultor Celso Leite, “um dos maiores ladrões de mexerica da família Paiva”. Ele conta isso aos risos, explicando que os furtos, comuns entre os meninos locais, eram “só farra mesmo”. Para proteger sua plantação, Jaime Paiva teria colocado um vigia de plantão e um cão de guarda, que teria corrido atrás de Celso e de Bolsonaro enquanto os meninos fugiam em direção ao rio.
“Íamos de canoa até um lugar que tinha uma laranja muito boa. Quando o cachorro latia, a gente pulava n’água.”
Bolsonaro e os Paiva
Bolsonaro não parece ter memórias felizes dos Paiva. A biografia Mito ou Verdade: Jair Messias Bolsonaro, escrita por seu filho Flávio Bolsonaro, indica que as diferenças de classe incomodavam o presidente.
No livro, Flávio escreve que “parte considerável do território da cidade de Eldorado Paulista era de domínio particular, uma fazenda enorme chamada Caraitá – que hoje seria um latifúndio”.
Na mesma página, é mencionada a chácara de Rubens Paiva, que aparece como irmão e não como filho de Jaime Paiva – Rubens tinha um irmão chamado Jaime, mas este não era dono da fazenda, como dito na biografia.
Nessa chácara, escreve Flávio, “tinha piscina, algo raro à época, mas que não era socializada com a criançada da vizinhança – que ficava apenas admirando, de longe, onde os filhos da família Paiva se refrescavam”.
Piscina dos Paiva ‘não era socializada com a criançada da vizinhança’, escreve Flávio Bolsonaro sobre juventude do pai
Mito ou Verdade ainda narra que os filhos de Rubens Paiva eram da mesma faixa etária de Bolsonaro e, “não raras vezes”, eram vistos comprando picolés Kibon em Eldorado, “inacessíveis à garotada local, que ao ver um deles jogar o palito fora, corria na expectativa de estar premiado com ‘vale um picolé’ marcado na madeira”.
Sobre esse episódio, um dos filhos de Rubens Paiva, Marcelo Rubens Paiva, diz que “não tomava sorvete” e “não tinha irmãos”, mas apenas irmãs.
“Talvez ele me confunda com meus primos”, ele diz. “Quando ele tinha 16 anos, eu tinha 11 e foi a última vez que fui a Eldorado.”
No parágrafo seguinte do livro é citada, de novo, a suposta ligação entre os Paiva e Lamarca que, por sua afinidade com a família, teria escolhido uma área próxima à fazenda para montar a guerrilha. A afirmação foi feita em vários discursos de Bolsonaro na Câmara.
“A verdade está lá em Eldorado Paulista!”, Bolsonaro disse no plenário da Casa em fevereiro de 2013. “Está todo mundo vivo lá. A Fazenda Caraitá está em cartório. A base de renda do Lamarca está lá na fazenda da família Paiva. É muito fácil verificar isso.”
Em visita ao registro de imóveis da cidade, a BBC News Brasil confirmou que a compra e venda da fazenda estão, sim, documentadas. Mas nada indica que os Paiva tenham fornecido recursos a Lamarca. Nem os antigos amigos do presidente, João Evangelista e Antônio Carlos, dizem conhecer essa versão da história.
“Nunca ouvi falar que financiava o Lamarca, não”, disse Antônio quando perguntado sobre o tema.
Marcelo Rubens Paiva diz que sua família não tinha ligação com Lamarca
Apesar de não haver indícios de ajuda financeira, o guerrilheiro chegou a cruzar as terras da família durante sua fuga, em 1970, como escreveu Marcelo Rubens Paiva em texto publicado no jornal Folha de S.Paulo em 1994.
“Meu tio Jaime acenou para ele, pouco antes do tiroteio com a Força Pública de Eldorado (…) O tiroteio foi a metros da fazenda, ao lado da Escola Jaime Paiva. Lamarca atravessou também o sítio 0K, do meu tio Carlos, e seguiu para Sete Barras.”
Depois do tiroteio, conta o escritor, a fazenda foi invadida por soldados que procuravam armas e tentavam estabelecer conexões entre os Paiva e Lamarca. Segundo ele, empregados e amigos da família chegaram a ser presos e torturados, e Carlos levou um tiro no pé acidental em uma das barreiras para cercar Lamarca.
À BBC News Brasil, Marcelo Rubens Paiva disse que a família não tinha nenhuma relação com Lamarca e que seu pai era contra a luta armada.
“Ele não era comunista, mas do PSB (Partido Socialista Brasileiro) e se elegeu deputado pelo PTB.”
As teorias de Bolsonaro sobre esses dois personagens se estendem até ao desaparecimento de Rubens Paiva. Ele argumenta que o ex-deputado não foi morto por agentes da repressão, mas por membros da esquerda comandada por Carlos Lamarca. Segundo Bolsonaro, o grupo de Lamarca teria chegado à conclusão de que ele foi denunciado por Rubens Paiva depois que este foi preso.
“Ninguém resiste à tortura (…). Então, o grupo do Lamarca suspeitou que Rubens Paiva o havia denunciado”, disse Bolsonaro na Câmara em março de 2012. “E esperaram o momento certo. Quando o Rubens Paiva foi detido pelo Exército, posto em liberdade, com toda a certeza, foi capturado e justiçado pelo bando do Lamarca e pelo bando da Esquerda, da VPR. E aí a culpa recai sobre as Forças Armadas.”
Em 2013, a Comissão Nacional da Verdade divulgou um documento inédito do Arquivo Nacional sobre as circunstâncias da morte do ex-deputado. O coordenador da Comissão, Claudio Fonteles, afirmou “não haver dúvidas” de que Paiva fora torturado e morto nas dependências do DOI-Codi do Rio.
Neto de Rubens Paiva acusa Bolsonaro de ter cuspido em busto do seu avô
Às palavras de Bolsonaro somam-se ações que marcaram sua animosidade contra os Paivas. Em um relato publicado no Facebook em outubro, o neto de Rubens Paiva, Chico Paiva Avelino, diz que, em 2014, o então parlamentar do PP cuspiu no busto que a Câmara inaugurava em homenagem a seu avô. No texto, Chico diz que sua mãe e tia faziam discursos emocionados quando foram interrompidas.
“Era Jair Bolsonaro, junto com alguns amigos (talvez fossem os filhos, na época eu não sabia quem eram), que se deu ao trabalho do sair de seu gabinete e vir em nossa direção, gritando que ‘Rubens Paiva teve o que mereceu, comunista desgraçado, vagabundo!’. Ao passar por nós, deu uma cusparada no busto. Uma cusparada. Em uma homenagem a um colega deputado brutalmente assassinado.”
A BBC News Brasil procurou o Palácio do Planalto para falar sobre o episódio, mas não teve resposta.
O gesto de Bolsonaro não foi noticiado na época, mas jornais reportaram como ele vaiou o discurso do então líder do PSOL na Câmara, deputado Ivan Valente (SP), durante a inauguração do busto.
Após a publicação do texto de Chico no Facebook, Marcelo Rubens Paiva dedicou uma coluna no jornal Estado de S. Paulo a elencar – e responder – as acusações que Bolsonaro fez a seu pai e à família nos últimos vinte anos.
“Como deputado, Jair Bolsonaro costuma proferir desde os anos 1990 na Câmara dos Deputados discursos mentirosos sobre meu pai, Rubens Paiva, um deputado federal como ele”, Marcelo escreveu também em outubro.
“A família Rubens Paiva, além de conviver com a dor morte sob tortura absurda por tantas décadas, ainda tem que aturar o ódio delirante de Bolsonaro (…)”
Os Paiva deixaram Eldorado nos anos 1970 e hoje os Bolsonaro são a família mais abastada da cidade. Os irmãos do presidente têm uma rede de lojas de móveis e de material de construção presente em mais de dez municípios do Vale do Ribeira.
A BBC News Brasil foi à loja de um sobrinho de Bolsonaro, um dos poucos parentes que ainda vivem em Eldorado, mas disseram que ele estava viajando.
Lamarca passou por Eldorado em 1970 e influenciou destino de Bolsonaro
O tiroteio de Lamarca
Não muito acontece em Eldorado. É até difícil distinguir dias úteis de feriados, já que o movimento nas ruas é parecido, as lojas abertas e vazias, a mesma dupla tocando violão no Centro, os conhecidos se cumprimentando de novo e de novo pelas calçadas.
Não é de se estranhar que um tiroteio na praça da cidade tenha gerado tanto rebuliço em 1970 – agitação que se mantém até hoje, quando os moradores recontam o enfrentamento entre Carlos Lamarca e a polícia. Falar de 8 de maio de 1970 na cidade é como perguntar onde alguém estava no dia da queda das Torres Gêmeas de Nova York: todo mundo tem uma história.
“Quando Lamarca passou eu tinha dez anos. Foi muito tiro! A gente era pequena, mas era atenta. Meu pai disse ‘abaixa, abaixa’ e foi todo mundo para debaixo da mesa”, diz Nilzilene de Oliveira, a vice-diretora da escola Dr. Jayme Almeida Paiva. “O pai da minha amiga foi baleado e ficou com chumbo no corpo até morrer!”
Os relatos ouvidos divergem em alguns pontos, mas combinados com registros históricos sobre a passagem de Lamarca pelo Vale do Ribeira constroem uma narrativa sobre o que aconteceu naquela noite – e onde Bolsonaro estava ao longo da ação.
Carlos Lamarca foi um dos principais nomes da oposição armada à ditadura brasileira como um dos líderes da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Ele chegou a ser capitão do Exército, mas desertou e foi expulso da corporação em 1969, quando já estava engajado na luta contra o regime. Participou de assaltos a bancos para financiar as atividades de seu grupo e comandou o sequestro do embaixador suíço no Brasil, Giovanni Enrico Bucher, em 1970, que foi trocado por 70 presos políticos. Nesse mesmo ano, considerado inimigo número um dos militares, Lamarca foi duramente perseguido.
Lamarca escolheu região do Vale do Ribeira para montar uma guerrilha nos anos 1970
A perseguição pelo Vale do Ribeira
Em abril de 1970, um militante da VPR capturado no Rio de Janeiro revelou que Lamarca estava no Vale do Ribeira, próximo a Registro, formando um grupo de guerrilha. Lá, contou o militante preso, o ex-capitão ensinava tática, tiro, desenhava uniformes e construía armadilhas.
O que os livros não detalham foi que, antes de se juntar a seus companheiros, Lamarca teria circulado sozinho pela região. Antônio Avelino de Melo Cunha, policial aposentado e dono de uma pousada em Eldorado, diz que chegou a conhecer o ex-capitão, que se apresentava como estudante universitário, assim como ele. O guerrilheiro teria se hospedado no hotel Eldorado, que ainda fica na praça central da cidade, e dito que gostaria de conhecer as cavernas da região – hoje uma das principais atrações locais.
“Ele estava procurando meu avô Guilherme, que tinha sido pesquisador do Exército e descobriu algumas cavernas. Lamarca se aproximou de mim perguntando se eu conhecia alguém da família e eu respondi que era neto. Mas não sabia com quem estava falando”, diz Cunha.
O ex-capitão teria pedido ao estudante que o levasse até as cavernas e, mesmo avisado que enfrentaria um dia de caminhada, não hesitou.
Cunha convidou dois amigos para se juntarem a eles, além de um mateiro que sempre andava com seu avô. Enquanto caminhavam na mata fechada, surpreendeu-se com a agilidade do novo amigo.
“Ele dizia que era universitário, mas caminhava na frente da gente e do mateiro também, cortando galho com facão”, diz.
Lamarca quando ainda era capitão do Exército; moradores dizem que ele passou um tempo em Eldorado
Lamarca teria ficado alguns dias na cidade, conta o policial aposentado, participando dos bailes e pedindo música para a bandinha local, da qual ele fazia parte. Aquele tempo serviria para que conhecesse a região a fundo antes de organizar sua guerrilha.
Mas recebida a informação sobre o paradeiro de Lamarca, em abril de 1970, o Exército foi rápido em enviar 1,5 mil homens ao Vale do Ribeira.
À procura de seu inimigo número 1, as tropas fecharam estradas, prenderam dezenas de pessoas e varreram a serra com helicópteros, bombardeando a floresta.
Morador de “sítio”, como os habitantes de Eldorado se referiam aos bairros afastados do Centro, o diretor da escola Dr. Jayme Almeida Paiva, Domingos de Pontes Junior, lembra bem dos helicópteros. Foi a primeira vez que viu um.
“O Exército pousou no meio do campo de futebol, quando o pessoal estava jogando. Os policiais queriam saber se meu tio tinha ajudado Lamarca a fugir, porque ele roubou a canoa do meu tio e desceu o rio. ‘Foi roubo mesmo? Foi roubo?’ eles ficavam gritando.”
Informado do perigo, Lamarca desativou suas bases de guerrilha próximas a cidade de Jacupiranga. Oito membros foram embora em ônibus, misturados à população. Outros dois foram capturados na estrada. Sobraram sete.
Praça de Eldorado foi palco de tiros entre Lamarca e policiais militares em 1970
Esses caminharam na floresta por três semanas, até que no dia 8 de maio entraram num vilarejo e alugaram o caminhão de um comerciante. O homem fechou negócio, mas enviou um cavaleiro para avisar a polícia, que montou uma pequena barreira de policiais na praça central de Eldorado. Por volta das sete da noite, quando o caminhão de Lamarca parou na cidade, um policial pediu que os sete passageiros descessem com documentos em mãos. Foi aí que os tiros começaram.
Tal versão não bate com a contada por moradores. Eles dizem que o grupo de guerrilheiros roubou o caminhão, obrigando seus donos a dirigirem até Eldorado enquanto ficavam escondidos na traseira, debaixo de uma lona. Quando o veículo parou no posto de gasolina, os policiais teriam desconfiado da movimentação, puxado a lona e passado a atirar.
Nessa hora, Bolsonaro estaria em aula na escola Dr. Jayme Almeida Paiva, que fica a 100 metros da praça. Antônio Carlos de Melo Cunha, amigo do presidente eleito, conta que estava na mesma sala quando alguém apareceu na porta para avisar que Lamarca tinha passado por Barra do Braço, a 30 km de Eldorado, e se aproximava.
“Pediram para o diretor liberar os alunos, mas não deu tempo porque pouco depois veio o tiroteio. Tivemos que ir rastejando. A polícia não tinha arma e o pessoal do Lamarca tinha armamento pesado”, diz.
“O pessoal do Lamarca tinha armamento pesado”, diz Antônio, que tinha idade de Bolsonaro na época
Como ele, Bolsonaro e outros alunos moravam próximo ao rio Ribeira, do outro lado da cidade, e precisaram atravessar a praça. Antônio diz que o grupo de adolescentes viu um dos policiais feridos ser carregado, coberto em sangue, até sua casa. O homem foi atingido na perna e depois precisou amputá-la.
“Os soldados estavam sendo massacrados!”, ele arregala os olhos. “Um grupo de homens invadiu a delegacia para pegar armamento. A gente gostava do Exército. Os outros, para nós, eram terroristas.”
Moradores relatam que Lamarca gritava “não queremos nada com vocês, nosso negócio é com o Exército”, tentando evitar mais tiros. Mesmo assim, dois PMs e uma mulher foram baleados. Ninguém morreu.
O ‘moleque’ na caça à Lamarca
Lamarca aparece em 33 discursos de Bolsonaro no plenário da Câmara desde 1995. Como deputado, ele repetiu que, quando adolescente, ajudou os militares a procurarem o guerrilheiro na mata.
“Eu sou de Eldorado Paulista. Eu participei, de forma bastante discreta, porque tinha 15 anos de idade, da caça ao Lamarca, ao lado do Ribeira”, disse Bolsonaro em sessão de março de 2012.
A mesma história foi citada em entrevista ao Programa Roda Viva, da TV Cultura, já como candidato a Presidência. A afirmação de que teria ajudado na caça à Lamarca “ainda moleque” levou a revista Época a publicar uma reportagem dizendo que Bolsonaro teria misturado dois episódios para engrandecer sua biografia.
No texto, o jornalista Plínio Fraga narra o causo do chamado “moleque sabido” de Itapecerica da Serra que, em 1969, ao anotar a placa de um Fusca, teria dado aos militares a primeira pista sobre Lamarca – “moleque” este que não seria o presidente, explica o jornalista. Fraga argumenta que na passagem do guerrilheiro pelo Vale do Ribeira, um ano depois, não haveria registro da ajuda de Bolsonaro.
Bolsonaro diz que ajudou soldados a procurar Lamarca no Vale do Ribeira
Apesar de a BBC News Brasil não ter encontrado documentos sobre a participação do presidente, moradores que testemunharam a operação de busca dizem que era comum o Exército pedir e receber dicas de pessoas que conheciam os arredores, inclusive adolescentes. O contato entre militares e população foi frequente, já que soldados rondaram a região por semanas. Lamarca só conseguiu escapar do Vale do Ribeira três semanas depois do tiroteio.
Filho do escrivão de polícia de Eldorado na época, Antônio Avelino conta que foi informante do Exército, narrando seus encontros com Lamarca. Segundo ele, Bolsonaro fez o mesmo.
“Jair Bolsonaro também foi informante. Ele conhecia bem o mato. Indicava para onde eles podiam ter fugido.”
Mesmo com todos esses esforços, Lamarca não foi capturado ali. Depois do enfrentamento em Eldorado, escapou em direção a Sete Barras. A pouco mais de um quilômetro da cidade, seu grupo foi interceptado por uma tropa da PM. Os guerrilheiros abriram fogo, ferindo catorze policiais e rendendo outros 18.
O pelotão era comandado pelo tenente Alberto Mendes Júnior, de 23 anos, que se tornou refém do grupo. Depois que dois de seus companheiros foram capturados, Lamarca decidiu que o tenente deveria morrer.
Tenente Alberto Mendes Júnior, morto por grupo de Lamarca, e citado como herói por Bolsonaro
O assassinato de Mendes Júnior é usado por Bolsonaro como símbolo da violência que a esquerda teria praticado contra os militares durante a ditadura. Ele mencionou o militar ao rebater o pagamento de indenização aos familiares de Lamarca, ao criticar a criação da Comissão Nacional da Verdade e até ao defender a possibilidade de um regime de exceção no caso de vitória de Dilma Rousseff nas eleições de 2010.
“O Tenente Alberto, heroicamente, trocou-se por outros soldados subordinados seus para seguir mata a dentro como refém de Carlos Lamarca, o grande traidor”, disse Bolsonaro no plenário da Câmara em 1996. “E depois, como Lamarca não precisava mais dele, porque estava livre, já longe das tropas das Forças Armadas, submeteu-o a bárbaras torturas, em que inclusive foi obrigado a engolir os seus órgãos genitais, assassinando-o a coronhas.”
A versão de que, antes de ser morto, Mendes teria sido obrigado a engolir seus órgãos genitais não consta nos documentos do Exército, disponíveis no Arquivo Nacional, nem nos escritos do general Carlos Alberto Brilhante Ustra em A Verdade Sufocada, livro de cabeceira do presidente. Em um capítulo destinado apenas a descrever o assassinato, Ustra relata apenas que Mendes foi morto com “violentos golpes na cabeça”, deferidos por Yoshitame Fujimore, outro membro da VPR, com a coronha de seu fuzil.
Eduardo Bolsonaro também fez post associando Lamarca à família Paiva
Soldados e meninos
Depois da troca de tiros na praça, soldados continuaram em Eldorado para impedir que o ex-capitão reaparecesse por ali. Moradores contam que os militares acampavam na ponte que passa sobre o rio Ribeira e liga a cidade a Sete Barras, ao norte. A ponte fica no quarteirão onde os Bolsonaro moravam. Os vizinhos Reinaldo e Lúcia Melo lembram os dias em que recebiam os pracinhas da operação para o almoço ou um cafézinho.
“O sargento de Guaratinguetá vinha tomar café em casa. Eles lanchavam, eu fritava uns bolinhos de chuva. Ficaram mais de uma semana acampados aí. As meninas iam lá conversar com eles e muitas ficaram grávidas depois. Meninos iam conversar também, tinham fascínio por esse negócio de arma”, diz Lúcia na pequena sala onde cabos e sargentos pediam licença para entrar.
Os amigos de infância de Bolsonaro relatam como as crianças e adolescentes procuravam os soldados para saber se o “terrorista” já tinha sido capturado.
“Depois do tiroteio, estávamos conversando com um pracinha quando ele enroscou a arma no cinto e ela disparou. Pegou só no sapato dele, que ficou cravado no chão”, ri Antônio Carlos, o colega de turma. “A gente era a favor do militarismo, nunca tivemos problema.”
Em versão bem conhecida da história – e repetida pelo próprio presidente –, um desses soldados entregou um panfleto sobre o alistamento militar para o jovem Jair.
Amigo diz que, depois de passagem de Lamarca, Bolsonaro só falava em ir para o Exército
O sonho da Presidência
João Evangelista, colega de colégio e parceiro de pescarias do presidente, diz que depois da fuga de Lamarca, Bolsonaro passou a repetir seu novo sonho: ir para o Exército. Três anos mais tarde, ele entraria na Academia Militar das Agulhas Negras.
“Depois disso daí, ele sempre falava que queria ir para o Exército. Achou bonito o trabalho deles.”
Em Mito ou Verdade, Flávio Bolsonaro escreve como seu pai “conheceu e se encantou pelo Exército Brasileiro, quando sentiu tocar no seu coração a vontade de servir ao seu país”.
Para um ex-prefeito da cidade, a influência da passagem de Lamarca na escolha de Bolsonaro é reforçada pela postura de sua família, que não era uma grande apoiadora da ditadura. Fernando Cláudio de Freitas, que administrou a cidade entre 1982 e 1988, era vereador pelo MDB quando Percy Geraldo Bolsonaro, pai de Jair, se candidatou à prefeitura pelo mesmo partido, em 1976. A sigla abrigava os opositores da ditadura.
Percy tentou o cargo mais duas vezes – em 1982 e 1988, dessa vez pelo PDS (Partido Democrático Social), sucessor da Arena e extinto em 1993 –, mas nunca foi eleito.
O pai de Bolsonaro foi fichado e monitorado pela ditadura em razão de sua candidatura pelo MDB. Documentos oficiais mostram que o Departamento de Ordem Política e Social (Dops), o Serviço Nacional de Informação (SNI) e o comando da Aeronáutica monitoraram suas atividades políticas e registraram o crime pelo qual ele tinha sido acusado, de exercício ilegal de profissão (medicina, odontologia ou farmácia).
Pai de Bolsonaro foi fichado pela ditadura quando se candidatou à prefeito pelo MDB, em 1976
Sobre o ex-colega de partido, Freitas diz que era “um cara democrático, liberal e tranquilo”.
Ele acredita que o caminho seguido por Bolsonaro foi ditado pelo episódio de Lamarca e cita seus irmãos como prova: “tanto é que os outros cinco seguiram caminhos diferentes”.
Só o caçula, Renato, foi militar. Depois de candidatar-se à Prefeitura de Miracatu por duas vezes e não ser eleito, e de ser exonerado do cargo de assessor especial da Assembleia Legislativa de São Paulo sob o argumento de que seria funcionário-fantasma, hoje ele administra lojas de móveis no Vale do Ribeira. Os outros irmãos também estão no comércio.
Cláudio lembra que a oposição ao governo era feita “dentro da legalidade e da normalidade”. Não havia ali defensores do comunismo ou socialismo, mas pessoas contrárias a ações do regime, como o desaparecimento de inimigos políticos. A disputa entre Arena e MDB era mais parecida a uma partida de futebol do que a um campo de batalha, ele compara.
Ex-prefeito de Eldorado, que foi colega de partido de Geraldo Bolsonaro, diz que ele era “democrático e liberal”
Seja como for, Bolsonaro decidiu-se pela vida militar.
Depois de partir para Resende, no interior do Rio de Janeiro, voltava nas folgas para Eldorado. Numa de suas visitas, reunido com os amigos, teria expressado o já famoso desejo de ser presidente do Brasil. João Evangelista estava lá quando isso aconteceu e narra o momento à BBC News Brasil.
Ele diz que depois de jogar bola, um grupo de meninos de 18 ou 19 anos, Bolsonaro entre eles, conversava sobre as novidades dos últimos meses. O jovem militar começou a falar sobre como estava subindo na hierarquia do Exército – ele havia deixado de ser aspirante a oficial e passava a tenente.
Quando estava no Exército, Bolsonaro já dizia que queria ser presidente
“Jair, então logo logo você vai ser presidente”, disse um colega.
“Mas é o meu sonho”, ele respondeu. “Um dia ser presidente!”
João explica o contexto da conversa. Segundo ele, o colega dizia que, subindo rápido assim, um dia Jair poderia tornar-se general e assumir a Presidência do Brasil como Castelo Branco, Costa e Silva e Médici haviam feito. Um dia, Bolsonaro poderia tornar-se o comandante máximo do regime.
“Naquela época, era o militarismo que tomava conta do Brasil. 1970 era o Garrastazu, Garrastazu Médici”, ele explica.
“Jair disse ‘meu sonho é um dia ser presidente’ só que naquela época era o militarismo. Porque era militar, né, general, coronel, que ia para a Presidência.”
Leonila Pontes (esq.) e sua prima, Virginia, nasceram no quilombo do Abobral
Uma cidade, doze quilombos
Leonila tem uma casa no mesmo lugar que seu tataravô escolheu para morar. Para chegar até lá, é preciso subir uma estrada íngreme por entre a mata do Vale do Ribeira. Tão complicado é o caminho que a reportagem é desaconselhada a continuar – pedras podem se soltar, furando um pneu ou causando acidentes.
O difícil acesso não é coincidência. O tataravó de Leonila construiu sua casa ali justamente por isso. Afinal, escravo fugido, ele não queria ser encontrado.
A família de Leonila da Costa Pontes, de 69 anos, faz parte do quilombo Abobral, um dos doze que existem em Eldorado Paulista. Como o município é o quarto do Estado em dimensão territorial, com quilômetros de bananais entre seus bairros, todas as comunidades cabem em sua área. A maioria foi reconhecida nos últimos anos, como no caso de Abobral, oficializada em 2015. O lugar, no entanto, não teve suas terras demarcadas.
Para a maioria dos moradores entrevistados, a forte presença de quilombolas na região foi um dos motivos para que a votação de Bolsonaro não fosse tão expressiva em Eldorado. O presidente teve 54% dos votos contra 45% de Fernando Haddad (PT).
“O PT é forte aqui com os quilombos, as ONGs e a igreja católica. Para mim o número foi vergonhoso, tinha que ter sido muito mais”, diz a professora aposentada Mara Cristina de Freitas Cunha, mulher de Antônio Carlos, um dos velhos amigos de Bolsonaro.
Apesar da torcida de Mara Cristina, não havia sinais de apoio ao presidente pela cidade. Adesivos de sua campanha foram vistos em três carros e duas janelas ao longo de quatro dias de viagem. Não havia banners, faixas ou bandeiras do Brasil, usados como símbolo da candidatura de Bolsonaro.
Ao perguntar a moradores por que escolheram seu conterrâneo para o cargo mais alto do país, o motivo que se destacava não era ideológico, mas econômico: “Esperamos que ele trabalhe para melhorar o Vale do Ribeira”.
Do outro lado, a preferência dos quilombolas por Haddad não vem apenas da proximidade do PT com movimentos sociais, mas da indignação que uma declaração de Bolsonaro causou.
Em abril de 2017, já pré-candidato a Presidência da República, ele disse em uma palestra no Clube Hebraica, no Rio de Janeiro, que havia visitado um quilombo em Eldorado Paulista e seus habitantes “não faziam nada”.
“O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles”, discursou.
O então deputado também afirmou que, se eleito, nenhum “centímetro” a mais seria destinado para reservas indígenas ou quilombolas.
Dos 12 quilombos de Eldorado Paulista, apenas um, Ivaporonduva, já teve suas terras demarcadas.
Quilombolas dizem que terreno onde antes plantavam hoje estão ocupados por “terceiros”
Os outros, como Abobral, veem os terrenos onde faziam seus roçados serem ocupados por bananais e casas de “terceiros”, como os quilombolas chamam os que passaram a comprar terra na região a partir de 1970, diminuindo a área que os descentes de escravos usavam havia séculos. As negociações feitas desde então são pouco claras, diz Leonila, e não se sabe se os compradores têm qualquer registro que comprove a posse dos hectares.
Para ela, apesar de ser um passo importante, o reconhecimento das comunidades quilombolas, possibilidade que surgiu com a Constituição de 1988, não mudou muita coisa. Suas terras seguem encolhendo e as diferenças de tratamento continuam.
No fundo da igreja
Leonila franze a testa quando a reportagem pergunta sobre as menções de Bolsonaro a seus amigos negros, citados para rebater acusações de racismo. Gotas de suor correm por debaixo de seus óculos enquanto ela aperta os olhos.
“Isso pode ser lá onde ele nasceu, mas em Eldorado, não! Sempre foi separado. Hoje está menos, mas é porque está enrustido. Naquela época, se fosse do sítio e pobre era discriminado. Se fosse negro, pior ainda!”
O pai de Leonila fazia parte da Congregação Mariana, uma associação pública de leigos católicos, e todo domingo caminhava por horas para ir a missa na cidade. Ele sempre levava os filhos, para quem recomendava: “não sentem na frente senão vão tirar vocês de lá”.
“Ele colocava a gente bem na porta da igreja, no fundinho, e sempre ficamos ali”, conta.
Membros da família de Leonila em jogo de futebol em Eldorado; para ela, sempre houve segregação
No carro, ao voltar do quilombo para Eldorado, onde hoje mora com uma prima, Leonila diz que ainda não se sente bem na cidade. Elas se mudaram há alguns anos, quando um tio adoeceu e precisou de tratamento no hospital local. Para explicar seu desconforto, lembra de uma procissão em que ela e outras duas mulheres negras foram escolhidas para carregar a imagem da santa. Ao deixarem a igreja, um grupo teria tirado a estátua de suas mãos.
“Só faltaram me derrubar”, ela balança a cabeça.
“Privilegiados” e “acomodados” são algumas das palavras usadas por moradores para falar dos quilombolas. Esses entrevistados têm a idade de Bolsonaro ou são mais velhos e, apesar de não representarem a opinião geral, indicam que uma distância persiste.
“Depois de 1990, eles foram denominados quilombos”, a professora aposentada Maria Cristina diz, quando perguntada sobre as comunidades.
E o que mudou?, a reportagem insiste.
“Eles agora têm vantagens”, seu marido Antônio Carlos entra na conversa. “Têm privilégios. Depois disso aí começou a pipocar quilombo”, diz, sem tirar os olhos da televisão. Um filme antigo está passando.
“As áreas que demarcaram para os quilombos é um absurdo”, ele continua.
“Mas Bolsonaro fala em garantir a propriedade privada”, a mulher retoma a palavra.
“Talvez essas demarcações absurdas acabem!”
Virginia e Leonila tiveram dentes extraídos pelo pai de Bolsonaro, o dentista prático da cidade
Dinheiro emprestado e dentes arrancados
Leonila conhece os Bolsonaro. Quando Percy Geraldo chegou com a família a Eldorado, para administrar uma fazenda às margens do Ribeira, ela diz que o dentista pediu dinheiro emprestado a seu pai, então um inspetor de quarteirão. Sem conseguir pagar, Geraldo ofereceu seus serviços. Vários dentes de Leonila foram arrancados por ele.
“O pai era um homem muito humilde. Ele tinha um gabinete na cidade, bem organizadinho e bem pobrezinho. Essa aqui também tirou dente”, ela diz, apontando para Virginia, sua prima, que senta a seu lado no pátio da Igreja do Abobral.
“Arranquei todos os dentes com ele”, Virginia ri, mostrando a dentadura.
“Ele contava que Jair tinha 17 anos e tinha ido para o Rio de Janeiro”, lembra Leonila.
Se, quando criança, sentada na cadeira do pequeno consultório em Eldorado, o filho do dentista era indiferente para ela, hoje Jair Bolsonaro é uma de suas maiores preocupações.
Ela diz temer o que presidente possa fazer com os quilombos: de não demarcar terras a incentivar a construção de barragens que poderiam deixar as comunidades debaixo d’água.
Leonila faz parte do Movimento dos Ameaçados por Barragens do Vale do Ribeira, uma central de movimentos sociais criada em 1990. Por quase trinta anos, o grupo lutou contra projetos de hidrelétricas no rio Ribeira de Iguape que, segundo seus representantes, ameaçariam comunidades quilombolas, pequenos agricultores, ribeirinhos e caiçaras.
Em 2016, o Ibama decretou a inviabilidade ambiental da usina de Tijuco Alto, projeto da Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), sepultando a obra. O lago de Tijuco Alco atingiria dois municípios em São Paulo (Ribeira e Itapirapuã Paulista) e três no Paraná (Adrianópolis, Dr. Ulysses e Cerro Azul) e poderia afetar toda a bacia hidrográfica do rio Ribeira do Iguape. No ano passado, o Ministério de Minas e Energia publicou uma portaria que extinguiu a concessão para o aproveitamento de energia da mesma usina.
O medo de Leonila, no entanto, é que um governo Bolsonaro promova a volta de projetos como esse, apoiado por parte da população de Eldorado. Moradores dizem que uma hidrelétrica movimentaria a economia local.
Em outubro, após a vitória de Bolsonaro no segundo turno, o presidente do Fórum de Meio Ambiente do Setor Elétrico (FMASE), Marcelo Moraes, disse que o governo recém-eleito aceleraria o processo de licenciamento ambiental de grandes empreendimentos de energia elétrica, com destaque para usinas. O FMASE é o principal interlocutor do setor em debates sobre questões ambientais.
“Só peço a Deus que ele não maltrate a gente”, Leonila diz, secando o suor da testa. A manhã avança quente sobre os bananais.
“Que esperar muito dele a gente não espera. Mas peço que não maltrate a gente…”
Quilombo de Ivaporunduva fica ainda dentro da área de Eldorado
Resistência
Católico também, Setembrino Marinho não pede a Deus. Um dos líderes do quilombo de Ivaporunduva e presidente do PT em Eldorado, ele diz que resistir lhe interessa mais. Como seus antepassados fizeram há séculos.
A 45 km do centro de Eldorado, mas ainda parte da cidade, Ivaporunduva aparece depois de uma hora de viagem por estradas esburacadas e duas pontes, a última feita de estreitas placas de madeira sobre pilares de concreto. A comunidade, de 3,7 mil hectares e 80 famílias, ocupa aquela terra desde o século 17, quando a área ainda servia à mineração de ouro.
Uma das histórias sobre a origem de Ivaporunduva conta que a antiga proprietária do lugar, dona Maria Joana, adoeceu, foi tratar-se em Portugal e acabou morrendo por lá, por volta de 1690. Viúva e sem parentes, a fazenda teria ficado para seus escravos.
“Eles foram abandonados aqui”, diz Setembrino, em frente a sua venda, um cubículo de madeira onde vende cerveja, refrigerante e cachaça.
Mas “abandonados” seria a palavra? Não estariam livres?
“Não”, Setembrino sacode a cabeça, secando o peito com a camiseta que leva pendurada no ombro. “Eles não sabiam o que fazer. Junto com a Maria Joana tinham o que comer, o que beber. E, quando ela foi embora, se eles atravessassem o rio, eram capturados. Tinham que ficar aqui.”
Os escravos decidiram reunir-se na igreja, que antes da morte de Maria Joana já estava em construção. Ali formou-se o quilombo.
Oitenta famílias vivem em quilombo de Ivaporunduva, a 45 km do centro de Eldorado
A igreja de barro batido e estrutura de madeira, iniciada pelos escravos a pedido de sua dona e terminada por vontade própria, ocupa o centro e a parte mais alta da comunidade. Levou o nome de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Nas ruas de terras não bem paralelas, mas concêntricas, estão as casas de alvenaria dos moradores. De um lado, margeiam o rio Ribeira; do outro, os paredões de mata que se estendem, intocados, morro acima.
“A maioria da Mata Atlântica está aqui”, diz Setembrino. “Falam que o Vale do Ribeira é o Nordeste de São Paulo, mas não é verdade. A gente é muito rico de tudo: de floresta, de água, de cachoeira.”
Para Setembrino, o que incomoda os críticos é o fato de os quilombolas serem pobres, pretos e terem terra.
“Estamos em dias de crise política, econômica, mas aqui não tem crise porque ninguém passa fome. Plantamos o que precisamos. Mas falar em dar terra para preto e pobre é difícil, porque terra é poder.”
Um dos líderes de Ivaporunduva, Setembrino diz que Bolsonaro falou de seu quilombo em discurso
Visitas de Bolsonaro
O líder de Ivaporunduva não se recorda de nenhuma visita de Bolsonaro, mas diz ter certeza que o presidente se referia a este quilombo durante a palestra no Clube Hebraica.
“Ele falou que visitou uma comunidade que tinha maquinário e nós temos três tratores. Além disso, é a mais conhecida e organizada da região”, ele argumenta.
Contra as acusações de que “não fazem nada”, Setembrino diz que Ivaporunduva fornece de 600 a 800 caixas de bananas orgânicas por semana para as prefeituras de Embu, Campinas e Santo André. O alimento vai para merenda escolar. No total, diz, a comunidade gera quase R$ 33 mil por mês com o fornecimento da fruta, além de receber grupos de turistas para conhecer a área.
Como a resposta sugere, sua tática é mais incisiva do que a de Leonila. Ele teme, sim, que Bolsonaro faça mudanças na região, como incentivar a construção de barragens ou abrir áreas de reserva para mineração, mas pretende manter a postura ofensiva.
Até 25 anos atrás, os quilombolas proibiam a entrada de pessoas estranhas ali, o que seus antepassados faziam há séculos, para evitar sua recaptura. Os motivos mudaram, diz Setembrino, mas a necessidade de fechar-se permanece.
“Eles deixaram isso pra nós. Não temos medo de lutar”, diz, arregalando os olhos negros.
Imagens de Fernando Cavalcanti/BBC News Brasil, Arquivo Nacional, Ag. Brasil, Ag. Câmara, Família Paiva e Instagram do presidente Jair Bolsonaro.
“Movida a sonhos”: conheça a trajetória da diretora da Nestlé para a América Latina

Katia Regina Pereira, 41 anos, sempre gostou de novos desafios. De origem humilde, ela construiu sua trajetória com ambição, sem enxergar limites para alcançar o que sonhava. Consolidou a carreira na área de recursos humanos, subiu degrau por degrau e, após anos de dedicação, chegou à direção da transnacional Nestlé. Em paralelo, um acidente mudou radicalmente sua vida, exigindo que ela usasse, mais uma vez, uma de suas melhores características: a adaptabilidade. Equilibrando o trabalho e a maternidade, além da nova realidade como pessoa com deficiência, ela assumiu a diretoria da empresa para a América Latina, reforçando o engajamento da marca e fortalecendo sua própria voz em defesa da inclusão e da diversidade.
Hoje, morando no México com a filha de 7 anos, Katia continua sua jornada de liderança, enfrentando desafios culturais e estruturais para tornar o ambiente corporativo melhor e mais acessível em diversos países. À frente de iniciativas estratégicas em busca de competitividade no pacote salarial, ela adapta políticas de remuneração e benefícios para diferentes realidades e promove mudanças nas organizações e na sociedade. Para a gestora, a liderança vai além da posição que se ocupa, é sobre superar limites e abrir caminhos para que outros também possam evoluir. Tudo isso com sua marca registrada: competência, leveza e bom humor.
Katia e a filha, Catarina, de 7 anos
Nascida em São José dos Campos, no interior de São Paulo, Katia Regina cresceu em um bairro pobre, chamado Vila Cristina, onde morou grande parte da vida. Filha de Geraldo, eletricista de manutenção, e de Francisca, empregada doméstica, ela sempre recebeu incentivo para os estudos dentro de casa, estudou em escolas públicas e se destacava como uma “aluna nota 10”. Porém, as condições financeiras da família eram limitadas, o que a motivou desde cedo a buscar oportunidades para mudar sua realidade e a de sua família.
“Eu sou caçula de dois irmãos mais velhos. Vim de uma família que não tinha muitas condições de viajar, de ter lazer externo, comer em restaurantes ou no shopping, coisas assim. Essa não era a minha realidade, mas eu tinha bastante paixão pelos estudos e sempre tive a ambição de ter essas oportunidades e de conhecer lugares”, conta. Inspirada pelo esforço dos pais, ela entendeu que somente a educação e o trabalho poderiam abrir portas para uma vida melhor.
Katia cresceu na Vila Cristina, bairro no interior de São Paulo
Aos 12 anos, Katia encontrou uma forma de ganhar dinheiro: vender os limões do quintal do tio. “Essa é uma história que a gente sempre comenta nos almoços de domingo da família. A ideia partiu de mim. Meu tio colocava os limões naqueles carrinhos de mão, aqueles que carregam areia, e eu, ‘magrelinha’, andava pelas ruas do bairro para vender. Não sei se as pessoas compravam por dó, mas era um sucesso, e eu fiz isso por quase um ano, dos meus 12 aos 13 anos, todos os dias”, lembra. O dinheiro arrecadado permitiu que Katia fizesse seu primeiro curso, de datilografia.
Aos 15 anos, ela conseguiu seu primeiro emprego formal como atendente de telemarketing na empresa de software Crosoft, vendendo sistemas. “Eu lembro que todo mundo, aos 15 anos, sonhava com uma festa de debutante, enquanto eu sonhava em ter um trabalho com carteira registrada. E eu consegui! Fiquei nessa empresa ao longo de três anos, onde também pude ter dinheiro para fazer um curso técnico de publicidade, e foi a primeira vez que eu consegui ir para uma escola privada”, compartilha.
” aria-label=”Botão para direita” style=”color: black;”>
Katia se formou no ensino técnico em 1994, ano em que o Brasil participou das Olimpíadas de Inverno em Lillehammer, na Noruega. Inspirado nisso, seu trabalho de conclusão de curso (TCC) abordou como utilizar embalagens para divulgar esportes, com foco na marca Leite Moça da Nestlé, empresa onde, anos depois, construiria sua carreira. “Eu tenho o TCC até hoje e me emociono bastante quando vejo. Na época, nem sonhava em trabalhar na Nestlé.”
Inicialmente, a então estudante sonhava em ser jornalista, mas mudou de ideia após conhecer uma profissional de relações públicas (RP), que despertou nela o interesse pela área. Fascinada pelo mundo corporativo, decidiu prestar vestibular para RP na Universidade de Taubaté, sendo aprovada entre os primeiros colocados.
Formatura em relações públicas na Universidade de Taubaté (SP)
Seu ingresso na Nestlé também aconteceu de forma inesperada: “Dei carona para uma amiga até o processo seletivo para estágio e, sem planejar, fui chamada para participar da seleção”, na qual acabou sendo aprovada. Sua amiga não passou, e Katia chegou a cogitar abrir mão da vaga, mas seguiu adiante e iniciou como estagiária em 2004. Seis meses depois, foi chamada para cobrir uma licença no RH e, desde então, nunca saiu da empresa.
Engajada na carreira, Katia percebeu que precisava desenvolver certas habilidades para continuar crescendo profissionalmente, como aprender uma nova língua. Sem condições financeiras para pagar um curso, ela decidiu estudar assistindo a canais em inglês na TV a cabo. “Fechei o pacote e comecei a estudar inglês através de escuta. Igual criança, eu ficava repetindo. E estudava inglês por aquelas apostilas de concurso público”, detalha. Seu esforço foi recompensado anos depois, quando novas portas se abriram.
Em 2009, ela se arriscou no programa de trainee da Nestlé e foi reprovada pelo inglês. No ano seguinte, persistiu e conseguiu não só passar, mas realizar mais sonhos. “Aquele foi o único ano em que também foi aberta uma vaga para o treino internacional. Quem passasse naquele programa poderia aplicar para essa modalidade, na qual seriam selecionados nove trainees ao redor do mundo para fazer uma missão na Suíça. Foi o ano de 2010 e eu fui uma das aprovadas”, conta. Durante dois anos, Katia viajou por 15 países implementando uma ferramenta de recrutamento e seleção. “Aquela menina que nunca havia andado de avião e nunca tinha saído do país, em dois anos, conseguiu fechar três passaportes”, diz, orgulhosa.
” aria-label=”Botão para direita” style=”color: black;”>
Desde 2004 na Nestlé, Katia teve de se mudar diversas vezes, morando em outros estados, como Rio de Janeiro e Espírito Santo, e percorreu todos os níveis da hierarquia corporativa: começou como assistente, depois foi analista, trainee, especialista, coordenadora, gerente e, por fim, diretora. Atualmente, ocupa o cargo de diretora regional de Total Rewards (Remuneração e Benefícios) para a América Latina, com a missão de garantir competitividade do pacote salarial em mais de 20 países.
Katia credita parte de sua visão de mundo também à forma como foi criada. “Meus pais me colocaram em uma ‘bolha’. Nunca falávamos de racismo ou preconceito em casa. Mas eles nos ensinaram a sempre carregar a carteira de trabalho, como um álibi. Nos prepararam para o mundo, mesmo sem falar diretamente sobre essas questões”, descreve.
Família reunida
Embora controversa, ela reconhece que essa abordagem a “protegeu”, ajudando a não se importar com os obstáculos sociais ou com a opinião externa a seu respeito. Por outro lado, destaca que essa “bolha” a impediu de perceber situações de racismo que possa ter vivenciado, algo que só veio a compreender mais tarde, quando o tema ganhou maior destaque na sociedade e nas empresas — inclusive, na Nestlé, em 2020, quando foi criado o centro de expertise em diversidade.
Apesar de ocupar cargos importantes na Nestlé, Katia sempre procurou separar sua vida profissional e pessoal, sem deixar que o trabalho definisse sua identidade. A virada na sua vida aconteceu em outubro de 2022, quando teve de se reinventar em uma nova realidade após ser vítima de violência doméstica, sofrendo um incidente que a deixou paraplégica. “Essa dor durou 42 dias. Depois eu falei: ‘Ah, é assim? Então, bora se adaptar”, recorda. Sua recuperação durou cerca de um ano.
” aria-label=”Botão para direita” style=”color: black;”>
“Eu não acho que vem sofrimento para você se manter sofrendo, mas para se superar e evoluir cada vez mais”, acredita. Ela também encontrou inspiração em diversas pessoas ao longo da jornada. Sua mãe, com toda força emocional, foi um exemplo de como superar os desafios com serenidade. Já no trabalho, líderes, como o presidente e o vice-presidente de confectionary (confeitaria) da Nestlé, além de Henrique Rueda, vice-presidente de RH, ofereceram suporte e oportunidades para que Katia pudesse se desenvolver e seguir em frente. “O mais precioso para nós são seus valores, sua inteligência, e isso não foi abalado”, ouviu de seus superiores.
Além disso, ela destaca a importância da rede de apoio em sua vida. Cinco amigas, apelidadas de “maridas”, foram fundamentais para ajudá-la a enfrentar os momentos difíceis, como o período em que esteve no hospital. “Com certeza, nem da cama eu conseguiria ter levantado se não fosse por essas pessoas. Ver elas ali todo dia, torcendo por você, foi essencial”, afirma.
Katia e as “maridas”: “Sem elas, não teria levantado da cama”
À frente da América Latina na Nestlé, Katia se prepara para lidar com a diversidade cultural, social e econômica dos países da região. Diante dos desafios, ela acredita em uma solução: continuar sonhando. “Todos nós passamos por problemas, e acho que isso também faz fortalezas. Eu nunca estive tão em paz como agora. Sou movida por sonhos, e hoje, o maior deles é viver por mais de 100 anos.”
Katia Regina e a filha, Catarina, mudaram-se para o México em janeiro. Apaixonada por esporte, ela se prepara para testar aulas de dança para cadeirantes: “Nunca estive tão em paz”
Japão registra morte e milhares são evacuados em incêndio

O Japão tenta neste sábado (1º) conter vários incêndios florestais, depois que uma superfície recorde em décadas já foi consumida pelas chamas, com saldo de um morto e milhares de evacuados.
Pelo menos uma pessoa morreu no incêndio iniciado na quarta-feira, que afetou mais de 80 edifícios e obrigou milhares de moradores a deixarem as áreas no entorno da cidade de Ofunato, na região de Iwate, no nordeste do país.
Segundo a agência japonesa de gestão de incêndios, 1.200 hectares já foram arrasados pelas chamas.
“Ainda estamos tentando determinar a superfície afetada, mas é a maior desde 1992”, assegurou um porta-voz da agência neste sábado à AFP.
” aria-label=”Botão para direita” style=”color: black;”>
Naquele ano, um incêndio destruiu 1.030 hectares em Kushiro, Hokkaido, no norte do país.
Neste sábado, 1.700 bombeiros estavam mobilizados em todo o país nos trabalhos para controlar as chamas que continuam ativas, segundo imagens aéreas da emissora pública NHK.
A causa do incêndio ainda é desconhecida neste momento.
Em 2023, o Japão registrou aproximadamente 1.300 incêndios florestais, concentrados entre fevereiro e abril, quando o ar fica mais seco e os ventos aumentam.
O ano de 2024 foi o mais quente registrado no Japão, segundo a agência meteorológica nacional (JMA), em um contexto de fenômenos extremos cada vez mais frequentes em todo o mundo devido à mudança climática.